terça-feira, 24 de abril de 2018

A SAÚDE COMO MERCADORIA



A SAÚDE como mercadoria.

A assistência à saúde tornou-se uma atividade econômica das mais lucrativas. No Brasil, representam 10% do PIB. Ao incorporar-se ao mercado, a saúde virou mercadoria, e assumiu as suas propriedades: padronização, impessoalidade, valor de troca, produção em massa, produtividade e a lógica do lucro. Como transformar um serviço que era centrado no cuidado, no acolhimento, na individualização do tratamento, no alívio ao sofrimento em mercadoria?

O primeiro setor da saúde a submeter-se a lógica do capital foi o de medicamentos. A indústria farmacêutica assumiu a produção dos remédios, no pós Segunda Guerra, e o consumo disparou. Basta vê a prosperidade das farmácias, uma em cada esquina, e não param crescer. A rede de comercialização dos medicamentos só perde para a de distribuição de bebidas.

Com o envelhecimento da população as necessidades de atenção a saúde aumentam. Este setor da economia cresce, mesmo em períodos de recessão da economia. O retorno dos investimentos é garantido. O paciente virou consumidor. O que fez a medicina, uma profissão milenar, para adaptar-se a lógica de mercado?

A grande mudança foi a transformação do cuidado médico em procedimentos. A fragmentação do cuidado, semelhante a uma linha de montagem da indústria, foi o caminho de adaptação da medicina ao mercado. O cuidado é muito subjetivo, pessoal, imprevisível, implica numa relação de confiança; inadequado a lógica de lucro e da padronização das mercadorias. Foi preciso transformar o cuidado em pequenas intervenções (procedimentos) e o estabelecimento dos protocolos. Os procedimentos são realizados por diferentes médicos. O paciente deixou de ter um médico cuidador. O trabalho é coletivo, uma linha de desmontagem sem coordenação. Cada médico conserta uma peça do padecente.

A Associação Médica Brasileira (AMB) criou uma Classificação Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM), transformando o cuidado médico em 4.700 procedimentos. Tudo especificado, codificado e com o preço de cada subitem. Existem outras tabelas de procedimentos, da ANS, do SUS, dos Planos de Saúde, etc. O discurso de um sistema nacional de saúde, universal, público e gratuito; e de uma assistência integral e equânime foi derrotado. Perdi mais uma!
Antônio Samarone.

sábado, 21 de abril de 2018

BANZO



Banzo

“O negro chegava, e ao experimentar o áspero cativeiro, entristecia e definhava, entregava-se ao desespero, fugia como um doido, banzava por aí afora, preferindo-se matar-se a cair novamente nas mãos do senhor”. (Lycurgo). O negro escravo, arrancado das plagas africanas, padecia de mortal tristeza, padecia de banzo, causa frequente de suicídios.

O banzo é um ressentimento entranhado por qualquer princípio, causado por tudo aquilo que pode melancolizar a saudade dos seus, e da sua pátria; o amor devido a alguém; à ingratidão, a aleivosia, a cogitação profunda sobre a perda da liberdade; a meditação continuada da aspereza da tirania com que os tratam. Esta paixão da alma a que se entregam, que só é extinta com a morte. Um forte parecer sobre o caráter dos africanos (fiéis, resolutos, constantes). O banzo era o resultado do ressentimento pelo rigor com que os tratavam os seus senhores, rigor acrescido de crueldade e tirania. (Memória de Oliveira Mendes)

O banzo dos escravos era a nostalgia da medicina europeia. Nostalgia foi o nome científico (do grego nostos, retorno à terra natal, e algos, dor ou sofrimento). Interessa aqui destacar que, como observa Rosen, em fins do século XVIII, a nostalgia era aceita como entidade clínica, reconhecida por médicos como uma enfermidade ocorrente em diversos grupos sociais, não apenas entre soldados, e descrita em vários países da Europa.

O quadro ocorreria com frequência entre soldados (em especial entre os jovens convocados à força) deslocados para regiões distantes de seu torrão natal, em geral em condições muito adversas, em guerras ou ocupações militares. Estes seriam acometidos por um profundo desespero, em razão das saudades de casa ou diante da ideia de jamais voltar a ver o solo pátrio. Este sentimento progrediria até se tornar uma doença, muitas vezes fatal, com manifestações físicas e mentais: enorme tristeza, insônia, fraqueza, falta de apetite, alterações gastrintestinais, ansiedade, palpitações cardíacas, febre, apatia, estupor, além das incessantes e suspirosas lembranças do lar distante. O único remédio eficaz, reconheciam os médicos militares, era o retorno à terra natal, já que os nostálgicos não serviam mais para as armas (Rosen).  

Antônio Samarone.

O FIM DA POLÍTICA



O fim da política.

Como a política ainda não acaba esse ano, teremos eleições, tomo a liberdade de fazer alguns comentários sobre Sergipe. O meu raciocínio parte do pressuposto que o eleitorado votará usando os critérios de sempre. Pelas pesquisas, não tenho sinais de que haverá mudanças.

Nos últimos 35 anos somente cinco políticos governaram Sergipe: João Alves, Albano Franco, Valadares, Marcelo Déda e Jackson Barreto (uma dinastia). Como será a renovação dentro da visão tradicional da política, quem serão os nomes para o futuro?

Sem exercício de adivinhação, pelos espaços que ocupam na vida pública, quatro nomes estão na linha de frente para substituir a dinastia anterior, a médio prazo: o prefeito de Aracaju Edvaldo Nogueira; o senador Eduardo Amorim; e os deputados federais Valadares Filho e André Moura, líder do presidente Temer. O resultado da próxima eleição será decisivo.

Claro, da geração mais nova, na política tradicional, tem outros nomes que podem emergir e se tornar líderes de projetos, chefes políticos. Não vou arriscar nomes. Entre os que estão atrás, na segunda fila da corrida, muitos já tiveram chances e não se firmaram, perderam espaço. Outros estão construindo os seus projetos, podem crescer. O jogo está aberto.

Na corrida eleitoral desse ano só enxergo duas novidades, entre os alternativos: Tarantela pela direita, ao lado de Bolsonaro; e Márcio Souza, pelo PSOL, que podem surpreender. No mais, são figuras repetidas, conhecidas de outros carnavais. Fiquei procurando novidades entre os outsiders, os que se apresentam como “não políticos”, sinceramente, por enquanto nada original. Contudo, a disputa eleitoral está apenas começando.  
Antônio Samarone.

terça-feira, 17 de abril de 2018

A MELHOR IDADE



A melhor idade.

O envelhecimento da população leva inexoravelmente ao aumento das demências irreversíveis. Entre elas, o Alzheimer corresponde a mais de 50%. A perda da memória e da atividade cognitiva apavora a quem sabe do que se trata. Entre as enfermidades, talvez sejam as demências que causem mais temor. Uma pessoa com Alzheimer terminal, ainda pode viver 12 anos.

Contrariando os crentes na auto-ajuda, nas teses simplórias que só envelhece quem quer, basta sentir-se jovem, que os problemas desaparecem; as demências não respeitam essas bobagens. Com a idade elas chegam, ignorando a ilusão e o pensamento positivo dos “velhos de espírito jovens”. Ou seja, as receitas da auto-ajuda não funcionam.

A medicina não se deu por vencida. Se os exercícios da mente (auto-ajuda) não afastam as demências, porque não exercitarmos o cérebro? Isso mesmo, fazer ginástica cerebral (brainfitness), uma forma de aumentar as reservas do cérebro. Se o cérebro está involuindo, atrofiando, regredindo; vamos estimular a neurogênese e a criação de novos circuitos cerebrais, adiando as demências.

Essa é a novidade: com a idade, começarmos a fazer coisas novas. Escovar os dentes com a mão contrária, andar pela casa de trás para frente, conferir as horas pelo espelho, aprender tocar um instrumento, fazer trilhas, ioga, pintar e bordar, desde que estejamos estimulando circuitos inativos do cérebro. Claro, isso não impede a chegada das demências, mas pode adiá-las por um bom tempo. Tem uma certa lógica, o risco é a gente desaprender a andar para frente.
Antônio Samarone.

domingo, 15 de abril de 2018

Os Direitos Humanos Serão Proibidos no Brasil



Os direitos humanos serão proibidos no Brasil.

O desprezo pela vida foi a marca da civilização no Brasil. Foi assim com índios e negros, consumidos pela violência, maus tratos e extermínio, ao longo de nossa história. Continua sendo assim com a população mais pobre. Presos e mortos, sem direito aos serviços da justiça. Dependendo do crime, a execução sumária está socialmente autorizada. A vingança substituiu a justiça.

A relação cangaço/volante era mais civilizada. O medo da violência é quem legitima mais violência. Todos os excluídos são suspeitos de tráfico ou de envolvimento com o crime, no mínimo coniventes, e muitas vezes eles não conseguem provar a sua inocência. São mais de 600 mil jovens encarcerados no Brasil, uma boa parte sem a devida condenação judicial.

Os porta-vozes da violência, diante de chacinas, execuções e linchamentos, esbravejam: - não me venham com essa lorota de direitos humanos, quem tiver pena de bandido, que leve para a sua casa. E os últimos e raros defensores dos “direitos humanos” estão intimidados, caíram na clandestinidade. Ficaram com medo de levantarem as suas bandeiras, e caírem em desgraça na opinião pública.

Só falta aparecer um parlamentar, desses da bancada BBB, para apresentar um projeto de lei proibindo os direitos humanos no Brasil, tornando-o crime inafiançável. E por ironia, ainda colher assinaturas, para torna-lo de iniciativa popular. Em pesquisa recente, 87% da população sente-se mais indignada com os maus-tratos aos animais (sobretudo cães e gatos) que aos humanos. A solidariedade, a fraternidade e a compaixão saíram de moda, e até a misericórdia estrou em vias de extinção.
Antônio Samarone.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O SUS AGONIZA


O SUS agoniza.
Não sei porque circula como novidade nas redes sociais, que estão querendo acabar com SUS. Isso vem de longe, acelerado nesse governo. A medicina comercial não se conforma na existência de serviços gratuitos de saúde, e alguns de boa qualidade. A ambição pelos lucros não tem limites. O capital financeiro, que comanda os planos de saúde, quer transformar o SUS em Mais Médicos, ou seja, num serviço primário para as populações na linha da miséria. Transformar a assistência as enfermidades em parte da assistência social aos mais pobres. Nessa visão neoliberal, cabe ao estado apenas assumir o papel da antiga filantropia, um retorno as misericórdias.
Os grupos liberais no Congresso, tendo a frente a bancada BBB, acusam o SUS de ser uma política “comunista cristã”. A Constituição determina que a saúde seja “um direito de todos e um dever do estado”, nada mais comunista; e o modelo assistencial do SUS aponta para uma atenção integral e equânime, nada mais cristão. Do ponto de vista liberal, dos que são contra os direitos sociais, é natural que proponham a entrega da saúde ao mercado. Afinal, eles defendem o reino das mercadorias. Na prática, a União sufoca o SUS, reduzindo a sua participação no financiamento.
Para quem ainda não percebeu, vai sobrar para estados e municípios, que se defrontam com uma demanda de 80% da população, que não pode pagar aos planos de saúde. Entenderam a estupidez em se gastar recursos tão escassos no luxo do Taj Mahal? Resta-nos, aos que acreditam em “saúde como um direito”, organizarmos a resistência.
Antônio Samarone.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

E POR FALAR EM PRÊMIO NOBEL


E por falar em Prêmio Nobel?

Uma questão me incomoda. Por que o Brasil nunca ganhou o Prêmio Nobel? A Academia Sueca premia anualmente, desde 1901, pessoas que se destacam em seis modalidades: física, química, medicina, economia, literatura e paz. Por que nenhum brasileiro fez por merecer esse prêmio? Fui esmiuçar e comecei pela medicina.

Carlos Chagas foi indicado em 1913 e 1921, pela descoberta da doença que leva o seu nome; Antônio Cardoso Fontes, em 1934, pelo trabalho com o bacilo da tuberculose; Adolpho Lutz, em 1938, por seus sobre doenças tropicais; e Manoel de Abreu, em 1946, pela abreugrafia. Todos perderam. De lá para cá, nem indicados temos.

Pelo menos no caso de Carlos Chagas, foi uma profunda injustiça. Ele descobriu uma doença importante, seu agente etiológico, o inseto transmissor, o ciclo biológico do parasito, animais reservatórios, as formas clínicas agudas e crônicas, e a sua sintomatologia. Mesmo assim não foi contemplado. Em 1913, a indicação de Carlos Chagas não chegou nem a ser avaliada; em 1921, a indicação foi avaliada, a documentação apresentada era consistente, mas a Academia Sueca resolveu a não premiar ninguém em medicina. Em 1921, não houve ganhadores.

Os historiadores da medicina comentam que as derrotas de Carlos Chagas, foi motivada pelas brigas aqui no Brasil. Alguns pesquisadores da própria Fiocruz, entre eles Afrânio Peixoto, Figueiredo de Vasconcelos, e o nosso Parreiras Horta se posicionaram contra, enviaram relatórios e documentos, desclassificando o trabalho de Carlos Chagas. Chegaram a questionar se a doença de chagas existia mesmo. Inimizades pessoais, desavenças, ciúmes e invejas, impediram o primeiro Nobel em medicina para o Brasil.               
Antônio Samarone.