quarta-feira, 21 de junho de 2017

MESTRES DA MEDICINA EM SERGIPE


Dalmo Machado Melo (91 anos), nasceu num sábado de aleluia (15/04/1926), em Piaçabuçu, com lábio leporino duplo. Os primeiros anos da infância foram difíceis. Aos oito anos foi para Salvador, realizar a cirurgia e estudar. Foi interno do Colégio Marista. Dr. Dalmo fica por lá até a formatura, em 15/01/1953.  Em seguida, estabeleceu-se como médico parteiro em Aracaju. Residiu os cinco primeiros anos dentro da maternidade Francino Melo, do Hospital de Cirurgia, atendendo a pobreza de Sergipe. A forma carinhosa como tratava as parturientes, o talento, a dedicação, sempre pronto para atender, a qualquer hora, em qualquer dia, levou que a sua fama corresse pela cidade. Em pouco tempo, o Dr. Dalmo era o parteiro preferido da cidade, dos ricos e dos pobres. Foi médico das esposas dos ferroviários de Sergipe. Fez o parto de muita gente.

A fama e a grande clientela levaram-no a criar na década de 1960 a Clínica Visitação, a primeira clínica obstétrica privada de Sergipe. Em pouco tempo, o estilo humanista, a falta de vocação empresarial, foram suficientes para o insucesso. A clínica fechou. O Dr. Dalmo continua a sua missão como simples parteiro.
A sua habilidade destacada permitiu a sua escolha para professor da Faculdade de Medicina. Os seus alunos aprendiam muito nos disputados plantões com o Dr. Dalmo. A paciência, o respeito com os alunos; após cada procedimento, ele fazia questão de reunir a turma numa pequena sala, e discutir os casos, explicar, justificar o que tinha feito. O Dr. Dalmo foi o mestre de várias gerações.

Esse grande médico a moda antiga, que sempre colocou a paciente em primeiro lugar, não transformou a sua profissão num comércio, não acumulou riquezas, e pagou caro com o envelhecimento. Descobriu aos 80 anos, que o que ganhava com a aposentadoria não era suficiente para cobrir as suas despesas, e foi obrigado a ir trabalhar como médico de família no SUS, em Muribeca, Neópolis, Pacatuba e Piaçabuçu. E o velho e honrado parteiro, que chegou a ser o obstetra mais famoso de Sergipe, ao invés do sagrado descanso, continuava atendendo 15 mulheres por turno de serviço. Só deixando quando as suas pernas não mais suportavam.


Por outro lado, agora aos 91 anos, nos concedeu uma entrevista emocionante. Relembrou com lagrimas nos olhos a sua felicidade, as suas alegrias, as amizades, o que fez de bem a tanta gente. Ali, num modesto apartamento, ainda guarda como ícone sagrado a pintura de Florival Santos, representando milhares de mães que ele zelosamente aliviou as dores do parto. Diariamente, o Dr. Dalmo posta-se diante do quadro e faz as suas orações, com a felicidade de quem tem certeza que a sua missão na vida foi cumprida. Minha emocionada homenagem, Dr. Dalmo. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

RANULPHO PRATA - Apontamentos para uma biografia.


Ranulpho Hora Prata – o fundador da radiologia em Sergipe. O mais sergipano dos escritores nacionais.
Nasceu em 04 de maio de 1896, em Lagarto/SE, filho de Felisberto da Rocha Prata e Ana de Vasconcelos Hora (Ana Hora Prata). Inicia os estudos em Estância, depois transferiu-se para Salvador onde concluiu o Ginásio. Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, estudando até o quarto ano, quando se transfere para Rio de Janeiro, concluindo o curso em 30 de dezembro de 1919, defendendo a tese “Do Riso”. Entre o final do curso e 1920, Ranulpho Prata estabelece a sua clínica médica em São Tomás de Aquino, no interior de Minas Gerais; no ano seguinte (1921) transfere-se para de Mirassol, no interior de São Paulo, onde se casou (1923) com Dona Maria da Glória Prata. Em 1924, nasceu o seu filho único, também médico, Paulo Prata.

Um parêntese: Henrique Prata, o neto de Ranulpho, em entrevista recente ao jornalista Jozailto Lima, relatou que a sua bisavó, Ana Hora Prata, já possuía uma visão humanista, tendo fundado uma Santa Casa de Misericórdia em Simão Dias, em 1918. Trabalho para os historiadores da medicina em Sergipe desvendarem.

Volta ao Rio de Janeiro em 1925, abre um consultório por 4 meses; retorna a Sergipe, a convite de Augusto Leite, para organizar o serviço de radiologia do Hospital de Cirurgia e disputar a cátedra no Colégio Atheneu Pedro II. Em maio de 1927 foi para Santos, ocupar a vaga de radiologista na Santa Casa de Misericórdia. Pai do Dr. Paulo Prata (filho único) e avô de Henrique Prata, do conceituado Hospital de Câncer de Barretos, SP. Faleceu em São Paulo, tuberculose, em 24 de dezembro de 1942, aos 47 anos, internado no Hospital Santa Cruz.
Ranulpho Prata é Patrono da cadeira sete da Academia Sergipana de Letras e da cadeira vinte e três da Academia Santista de Letras. Aprovado para a cátedra de literatura do colégio Pedro II, em Aracaju, cargo que não assumiu. A Renascença das Letras em França; Foi a tese apresentada quando da disputa pela cadeira de literatura no Atheneu Pedro II, em Aracaju (1927).

Escreveu o tropeiro, conto, 1916; O Triunfo, romance, 1918; Do Riso, tese de medicina, 1921; Dentro da Vida, onde Ranulpho expressa a sua visão da medicina e do seu papel como médico, é também uma novela sobre a lepra, 1922; na epigrafe, ele cita o grande clínico brasileiro Miguel Couto: “Não vos esqueçais, então, de que se toda a medicina não está na bondade, menos vale separada dela. ” Ranulpho Prata carregava consigo uma lição do médico e filosofo judeus Moises Maimônides: “Senhor, enche a minha alma de amor pela arte e por todas as criaturas. Sustenta a força do meu coração, para que esteja sempre pronto a servir ao pobre e ao rico, ao amigo e ao inimigo, ao bondoso e ao malvado. E faz com que eu não veja senão o humano, naquele que sofre! Com certeza, Ranulpho passou essa lição para o seu único filho, o Dr. Paulo Prata. “ Citação do Dentro da Vida - “Legar-lhe-ei toda a minha fortuna que servirá, em suas mãos, para construir e manter, nos terrenos da fazenda, um leprosário para indigentes. Não os deixe mais peregrinar pelas estradas, a esmolar, causando repugnância e horror. Recolha-os. Deixarão de ser perigosos para os são, e terão garantidos o pão e o leite. Morrerão, pelo menos, tranquilamente, ao abrigo das intempéries e o que é mil vezes pior, da repulsa humana. ” A Longa Estrada, contos, 1925; o Lírio na Torrente, romance, 1926; Lampião, documentário – 1934. Citação: “Promessas pagam-se em qualquer tempo. Esqueceremos todas as que nos foram feitas, mas pedimos, rogamos o cumprimento daquela que é para nós a maior de todas: o combate eficiente a Lampião. Não queremos estradas, justiça, trabalho, escolas, higiene, tudo que constitui luxo de civilização requintada. Mas concedei-nos a esmola da tranquilidade e da paz. Lampião, escrito em forma de documentário, é uma denúncia, um clamor nacional contra o “terror do sertão”, o ponto de vista do filho do Coronel Felisberto Prata, fazendeiro em Simão Dias.

Navios iluminados, romance sobre a vida de um nordestino nas Docas de Santos, em 1937. Ao lado de Os Corumbas, de Amando Fontes, vários manuscritos ficaram inéditos, inclusive um romance Uma Luz na Montanha. Ranulpho ainda escreveu várias monografias: A Renascença das Letras em França; Repercutiu em nossa literatura o movimento romântico de 1930? O Teatro no Brasil; O valor da radiografia no esqueleto, Diagnóstico da sífilis congênita e Servidão e grandeza da doença; Martins Fontes, médico.
     
Qual o lugar de Ranulpho Prata na literatura brasileira? O crítico Geraldo Azevedo (1955), citado por Paulo de Carvalho Neto, faz a seguinte análise: “Não será inverdade afirmar que Ranulpho Prata é um dos grandes injustiçados da literatura nacional. Nossa crítica, tão pródiga em dispensar elogios, ainda não se deteve para estudar a obra, não muito vasta, do escritor sergipano. Compreende-se até certo ponto essa ausência: é que Ranulpho Prata, de temperamento arredio, lutando sempre contra a pertinácia da doença (a tuberculose não tinha cura), vivendo exclusivamente para o trabalho e a família, não teve tempo de brilhar nas reuniões pseudos literárias, em que o cabotinismo, a auto incensação, a bajulação sem termo nem medida tomam a maioria das horas daqueles que procuram a glória sem querer participar das renúncias que a arte exige dos seus seguidores. Felizmente, o tempo não conserva ídolos de barro. E os que viveram uma vida literária sem literatura acabarão por ceder o lugar que injustamente ocupavam aos homens de têmpera e valor. Um dia, quando se fizer uma revisão honesta da história de nossas letras, Ranulpho Prata de certo aparecerá com o esplendor de sua grandeza humana. A obra que construiu cheia de brasilidade e calor, de ternura e emoção emergirá do esquecimento atual para o deslumbramento das gerações futuras. Nesse dia, a crítica literária nacional, terá apagado da história de nossas letras mais uma injustiça. “
 
Paulo de Carvalho Neto nos conta uma passagem deliciosa da amizade Lima Barreto com Ranulpho Prata: “Lima Barreto elogiou o livrinho – conta Ranulpho Prata a Silveira Peixoto, em 1940 -, e foi visitar-me no Hospital do Exército, onde eu era interno. A visita desse mulato genial deu-me grande alegria. Sentados num dos bancos do imenso parque do hospital, o Lima, meio tocado, como sempre, mas perfeitamente lúcido, claro, brilhante mesmo, queria saber com segurança se a Angelina do romance era realmente bonita como eu a pintara. Todos os ficcionistas, dizia-me com ironia, tem a mania de fazer belas raparigas das cidades pequenas. Nos lugares por onde eu andara não vira nenhuma... Eram todas feias, grosseiras, desalinhadas... E eu garanti que a minha Angelina era, positivamente, encantadora, capaz de virar cabeças sólidas de gente das grandes cidades. “

Uma literatura social influenciada por Jackson de Figueiredo, de quem era grande amigo. Uma poesia em defesa dos oprimidos de inspiração cristã, é essa a sua obra. Mais recentemente Ranulpho Prata começou a ser descoberto pelos estudiosos da literatura, a sua obra foi tema para tese de mestrado “História e Literatura no Porto de Santos – o romance de identidade portuária, Navios Iluminados, defendida por Alessandre Alberto Atanes Perreira, na Universidade de São Paulo; bem como teve o citado livro republicado pela editora da USP.

Ranulpho Prata e Jackson de Figueiredo.
A aproximação intelectual entre Ranulpho Prata e Jackson de Figueiredo é notória no pronunciamento da solenidade de inauguração do Centro Dom Vital em Sergipe (1933). Ele afirma, então, que Sergipe era o berço do nosso grande Jackson, por isso, “não podia, de nenhum modo, quedar-se indiferente à obra grandiosa de fé e de combate, que foi o maior e o melhor sonho de sua inteligência. Com essas palavras Ranulpho Prata inicia sua conferência, a convite do padre Moisés Ferreira, uma das figuras do Centro Dom Vital e diretor do periódico católico no estado de Sergipe.

“Aqui, junto aos amigos de infância de Jackson, na vizinhança destes sítios melancólicos onde ele passou os seus dias nervosos de menino, do menino que havia de ser mais tarde o ser de exceção, tão útil ao Brasil e à “Fé”, como que sentimos mais perto de nós, mais na nossa intimidade, a viver conosco todas as horas.
Bem sabeis que estais a receber um humilde e velho soldado da fé e da Igreja. Ao enfileirar nas vossas hostes, repito o juramento feito a mim mesmo, há mais de lustro, de combater o bom combate.
Sob o patrocínio do espírito de Jackson, que sinto pairar nesta sala como um pássaro de asas de luz, enchendo os nossos corações de uma saudade doce e consoladora, vou dar início a minha palestra.
O assunto – o sofrimento
Na vida toda cheia de incertezas, de ilusões e de imprevistos, só há de certo e fatal o sofrimento. Do berço ao túmulo é o companheiro inseparável do homem. Não se lhe despega da ilharga, como uma sombra triste. A história do sofrimento é a história mesma da humanidade. O nascimento é um ato de sofrimento grandioso e duplo. Sofre quem dá a vida e sofre quem a recebe. Depois, sem mais nos abandonar, vai ele nos seguindo, palmilhando conosco toda a subida alegre da montanha.

Ranulpho e Lima Barreto.
Na carta, datada de janeiro de 1921, trocada com Lima Barreto, Prata reafirma esse sentimento de desolação do médico no interior do Brasil, justamente na época em que trabalhou em Mirassol:
Nada posso fazer no interior, num ambiente que asfixia e mata. E, ademais, o tempo é pouco para dar alívio físico ao jeca sofredor. E é assim, meu caro e ilustre homem de letras, que um moço como eu que sempre ambicionou uma vida superior, uma vida de espírito, consuma todo o seu tempo em curar tracomas, amarelão e disenterias! ...não se pode imaginar o que é a clínica do interior, clínica de casebres. Andam de braços em casa do nosso caboclo, numa funesta e desoladora parceria, a miséria e a moléstia. Verdadeiros quadros de romance meus olhos têm visto.

Na epigrafe do livro “Dentro da Vida”, onde Ranulpho traduz a vida e as dificuldades de um médico do casebre ele cita uma famosa formulação de Miguel Couto: “Não vos esqueçais, então, que se toda a medicina não está na bondade, menos vale separada dela.


A abordagem estética de Ranulpho Prata, enfatiza as figurações sobre a vida em uma vertente católica do sofrimento, a ideia de sofrimento resignado, vinculado à visão política do pensamento católico do Centro Dom Vital. As camadas pobres da população brasileira eram identificadas na obra de Prata pelos imigrantes nordestinos e pelos habitantes do interior. 

sábado, 17 de junho de 2017

A LEPRA EM SERGIPE (PARTE UM)


A LEPRA EM SERGIPE (parte um)

O médico sergipano José Lourenço de Magalhães afirmou em seu tratado “A Morfeia no Brasil” (1882), não existir casos de lepra em Sergipe no Século XIX, e vai além, afirmou também que os índios brasileiros não conheceram a doença. Para embasar essa afirmativa, Magalhães recorreu ao médico holandês Guilherme Piso, em sua História Natural do Brasil, onde está citado que desde da descoberta dessa parte da América, nenhum médico identificou entre as doenças cutâneas nem a sarna nem a lepra.
No início da década de 1890, o médico sergipano José Lourenço de Magalhães, Presidente da Academia Nacional de Medicina - 1895 a 1896, ferrenho anti-contagionista, defendia a curabilidade da lepra e afirmava que, desde 1878, vinha utilizando uma terapêutica própria no tratamento dos leprosos. Com uma farta produção científica, onde defendia de forma fervorosa suas teorias e combatia o paradigma bacteriológico, José Lourenço de Magalhães publicou, em 1882, o livro "A morfeia no Brasil" e, em 1885, "A curabilidade da Morfeia". Nestes trabalhos Magalhães, além de defender a curabilidade da lepra, propõe um novo método terapêutico que não divulgava por considerá-lo anticientífico. Fiel aos princípios formadores do saber médico que rejeitava teoria vagas e abstratas, Lourenço de Magalhães defende seu método, argumentando que não confiava exclusivamente na terapêutica, mas sobretudo na higiene. Mesmo o bacilo de Hansen, Mycobacterium leprae, já tendo sido associado a causa da lepra em 1873, pelo cientista norueguês Gerhard Henrik Amauer Hansen, médico do leprosário de Bergen; o doutor Magalhães continuou crente em suas teses.
O Dr. Simeão Vieira Sobral em uma publicação de 1932, “A Saúde Pública em Sergipe”, relatou: “Da lepra só chegaram ao nosso conhecimento seis casos, sendo cinco na capital e um no interior (Socorro). Elucidado o diagnóstico, com a identificação do bacilo de Hansen, tomamos as providências pelo nosso regulamento em vigor. Presentemente, serve de isolamento uma pequena enfermaria situada em terreno do Hospital Santa Isabel e é a ele subordinada. “ Raríssimos são os casos de lepra em Sergipe, existem alguns casos isolados em Estância e em Itabaiana”. Em 1933 oito casos foram identificados; em 1934, oitenta e nove doentes e em 1937, o número de casos notificados já tinha ultrapassado aos duzentos. Heráclides César de Souza Araújo, em seu trabalho “A Lepra e as Organizações anti-leprosas no Brasil” publicado em 1936, informou que Sergipe possuía 86 lazarentos fichados e uma estimativa de 200 doentes.
O Serviço de Profilaxia à Lepra e as Doenças Venéreas funcionava em Sergipe desde 1928, órgão federal chefiado pelo Dr. Oscar Nascimento, instalado no prédio do Instituto de Química. Nem mesmo um local apropriado existia. No final de 1930 o serviço de combate à lepra foi fechado por medida de economia. Dr. Oscar Nascimento, foi o primeiro médico a cuidar da lepra em Sergipe. 
Em carta ao Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), datada de 15 de março de 1933, o Dr. José Thomaz D’Ávila Nabuco, Diretor da Saúde Pública, informava que em Sergipe existia apenas oito casos de lepra. Em oficio nº 544, de 03 de novembro de 1936, o Dr. Lauro Dantas Hora, Diretor de Saúde Pública de Sergipe, informou ao DNSP, que o censo de leprosos de 1934 identificou no Estado 89 casos, com uma estimativa provisória podendo chegar a 200 casos. As autoridades sanitárias de Sergipe julgavam que para dominar o flagelo da lepra era necessário apenas a fundação de um asilo, sendo desnecessárias a criação de dispensários.
Em 13 de abril de 1936, foi instalada em Aracaju a Sociedade Sergipana de Combate a Lepra, visando colaborar com o Governo no enfretamento desse flagelo. Com a presença das senhoras Eunice Weaver, América Xavier da Silveira e Olga Teixeira Leite, representando a Federação Brasileira de Assistência aos Lázaros, reuniram-se na sede da Associação Comercial, sob a presidência do professor Franco Freire, diretor da Instrução Pública, os senhores Manuel Dias Rollemberg, representando o Governador; Lauro Dantas Hora, Diretor da Saúde Pública; Godofredo Diniz, Prefeito da Capital; o Major Osvaldo Nunes dos Santos, Chefe da Polícia; o Coronel Antônio Mendonça, comandante do 28 BC; Epifânio Dória, Secretário Geral do Estado; Guilhermino Resende, Presidente da Associação Comercial e monsenhor Mário de Miranda Vilas Boas, representante do Bispo Diocesano. “
Abrindo a sessão o professor Franco Freire salientou a importância do empreendimento, dando a seguir a palavra ao Dr. Lauro Hora, que leu um brilhante trabalho expondo o que seja o Mal de Hansen, as suas modalidades, profilaxia e modos prováveis de cura. A seguir foi dada a palavra a exma. Senhora Eunice Weaver, que expos a finalidade da Federação Brasileira de Assistência aos Lázaros e das sociedades estaduais, encarecendo o papel da mulher na grande campanha, (presentes em massa na reunião). Finalizando a reunião o professor Franco Freire leu o projeto de estatuto da sociedade em Sergipe, que foi aprovado por unanimidade e aclamado os membros diretores, cabendo a presidência a virtuosa senhora Marieta Leal. “
“A ilustre dama paulista, cidadã americana, Eunice Weaver, presidente da Federação, em linguagem corrente, sobriedade de adjetivos, elegância e precisão na frase, expos os motivos principais da campanha social popular contra a lepra, bem assim os progressos da campanha em todos os Estados, as dificuldades, e encareceu, sobremodo o papel da mulher diante de tão grave problema que, por nossa incúria, assumiu tão grave grau de desenvolvimento em nosso país. “ (Jornal O Estado de Sergipe – 15/04/1936).
No Tratado de Leprologia de 1950, as informações sobre Sergipe são de baixos registros: “Raríssimos eram os casos de lepra nesse Estado por volta de 1882, segundo Magalhães. Existiam casos isolados em Itabaiana e Estância. Nesta última cidade, dois irmãos eram doentes. Ao morrerem, a progenitora adoeceu também. Informou um facultativo a este autor, que nunca soubera de um caso de lepra às margens do São Francisco. Continua o Tratado, durante muito tempo, Sergipe figurou nas estatísticas, apenas com oito doentes, até mesmo 1933, quando prestaram informações a Souza Araújo.  Em 1934, o censo atingira a 89 doentes. Souza Araújo, admitia em 1937, uma estimativa provisória de 200 doentes, que daria um índice de 0,35 (população do Estado 595.312 habitantes). Segundo dados por nós obtidos no Serviços Nacional de Lepra, em maio de 1943, estavam fichados 72 doentes.
Em 1938, veio a Sergipe o médico sergipano Jose Fonseca Guaraná de Barros, a fim de levantar a verdadeira situação do Estado em relação a lepra. O censo foi iniciado e até o ano de 1943, foram levantados em Sergipe, em 16 municípios, 73 doentes de lepra e 216 comunicantes. Em 19 de janeiro de 1939, através do Decreto nº 167, foi criado em Sergipe o “Serviço de Profilaxia da Lepra”, vinculado ao Departamento Estadual de Saúde Pública; curiosamente, anterior a criação do Serviço Nacional da Lepra. O Dr. Guaraná de Barros foi nomeado o seu primeiro diretor.
No final de 1943, o Dr. Guaraná Barros demitiu-se do cargo, não chegando a inaugurar o leprosário, cuja a construção se arrastava desde de 1937. Em abril de 1944, assumiu a direção do Serviço de Profilaxia da Lepra em Sergipe o Dr. Fraga Lima, sendo imediatamente liberado para fazer o curso de especialização em lepra, no Departamento Nacional de Saúde, no Rio de Janeiro. Em seu retorno, uma das primeiras providências do novo Diretor foi convidar o médico Armando Pondé, do serviço Nacional da Lepra, para realizar um novo censo sobre a situação da lepra no Estado. O censo ocorreu entre setembro de 1945 e junho de 1946. De forma resumida, encontrou-se o seguinte resultado: Simão Dias, 74 doentes; Aracaju, 32 casos; Maruim, 06 casos; São Cristóvão, 05 casos e Itabaiana, 03 casos. No início de 1945, o Doutor Fraga Lima em seu retorno do curso de especialização em lepra no sul do país, recebeu também do Interventor, Eronides de Carvalho a incumbência de organizar os serviços de combate à lepra em Sergipe. Fraga Lima assumiu a direção do leprosário.
O Leprosário de Sergipe foi inaugurado em 19 de abril de 1945, dia do aniversário de Getúlio Vargas, a contragosto do Interventor Augusto Maynard, em final de mandato. A chave foi entregue pelo Secretário Geral do Governo, Leite Neto. A inauguração ocorreu sem pompas, num esforço do Dr. Fraga Lima, seu primeiro diretor, permanecendo no cargo até maio de 1949. O leprosário começou a sua construção em 1937, arrastando-se por oito longos anos. A Colônia Lourenço de Magalhães, o leprosário de Sergipe, chegou tarde, foi inaugurado com 18 pacientes isolados; e em dezembro de 1948, já existiam 49 pacientes. Um crescimento rápido em apenas três anos.
Devido as resistências e preconceitos com o nome leprosário, o nosocômio foi batizado como Colônia Jardim, nome do sítio, com 447 tarefas, localizado no município de Nossa Senhora do Socorro, onde depois foi construído o atual Conjunto Jardins. Na sequência, o leprosário de Sergipe passou a se chamar Colônia José Lourenço de Magalhães, em homenagem a esse leprólogo sergipano do século XIX, nome conceituado internacionalmente. Em dezembro de 1974 este antigo leprosário foi desativado e transferido para um sítio menor, com 44 tarefas, localizado na Avenida Santa Gleide, numa encruzilhada denominada “Volta do Tapa”, entre o Calumbi, Parque São José e o mangue do Bugio. Onde funcionou o primeiro leprosário o governo construiu o conjunto Jardins, com mil casas, concluído sua primeira etapa em 1984; e segunda etapa, com mais cento e cinquenta casas, foi entregue em 1987; preservando o nome do antigo sítio; e no local do segundo leprosário, quando desativado, foi construído o conjunto Maria do Carmo Alves. 
As dificuldades do leprosário foram imensas. Longe da cidade, sem recursos, e quando cavaram os poços para abastecimento do local a água não prestava, calcária, dura, imprópria para o uso dos doentes. A nome Colônia Lourenço de Magalhães nunca pegou, o povo só chamava de leprosário; viveu dias difíceis. Na prática, os leprosos inicialmente isolados, lotearam o terreno, fizeram pequenos sítios e quem pode fez a sua casinha. Quem passa atualmente pelo antigo leito da BR-101, ainda encontra essas propriedades que os leprosos tinham a posse.
Em seguida o Dr. Fraga Lima tomou a iniciativa de construir um dispensário de lepra em Simão Dias. Vejamos o relato do próprio: “Em face de existirem em Simão Dias muitos doentes que não careciam de internamento, mas que deviam ser tratados, tive a ideia da construção de um dispensário naquela cidade. Da Prefeitura conseguir o terreno. Apelando para o Serviço Nacional da Lepra, mandou-me este a quase insignificante importância de 10 contos de reis. Contei, entretanto, com a colaboração do Prefeito de Aracaju, Dr. Marcos Ferreira, do Governador José Rollemberg Leite, e com o esforço da senhora Carmem Salustino, que promoveu festivais em benefício das obras do dispensário. Contei com a colaboração dos Drs. Salustino Neto, médico, e Belmiro Gois, Juiz de Direito que ajudaram na administração das obras, sendo que o Dr. Belmiro ainda conseguiu do seu cunhado Cândido Dortas, uma dádiva de cinco mil tijolos de alvenaria. O Dr. Marcos, pela Prefeitura de Aracaju, deu todo o serviço de madeira do forro. O Governador Rollemberg deu, pelo Estado, todo o serviço de azulejo. “ Minha Passagem pela vida” – Fraga Lima.
A decisão do isolamento compulsório dos leprosos com a forma contagiante em leprocômios, em nome da ciência e da higiene, foi mais um crime cometido contra esses padecentes. O Dr. Fraga Lima em suas memórias “Minha Passagem pela Vida”, relatou o seu relacionamento com esses sofredores: “Quem se dedica ao trabalho de assistência a doentes internados em leprocômios, há que se revestir de paciência evangélica, do contrário não poderia cuidar deles, pelo grau de intolerância a que muitos chegam. Não seria possível conviver com eles, nem mesmo aquelas horas em que o médico mantém o contato com doentes tão complexados, não fora a paciência da nossa parte. “ Continua Fraga Lima, “para quem luta com esses doentes, começa o sofrimento quando se vai tirar o doente do seio da família, a qual, muitas vezes, é a primeira a criar dificuldades, rebelando-se contra o médico. “
O trabalho de internamento compulsório (prisão) gerou resistência nas vítimas, além do estigma a criminalização. O Dr. Fraga Lima entra nos detalhes: “quando foi preciso dar início ao trabalho de recambiar doentes para a Colônia, tive grandes contrariedade por causa de um rapaz que me procurou para dizer que, se fosse ele o doente, em vez do irmão, não iria para a Colônia, e que tinha um revolver para impedir que o irmão fosse... “, Continua Dr. Fraga, “Ao conduzir o irmão doente para o carro, ele o incitava a me cuspir no rosto. O doente respondia que não era judeu para me cuspir.... Depois que se achou dentro do carro, cuspiu-me mesmo, só não atingindo os olhos porque eu estava de óculos. Tive que fazer a assepsia com sabão e álcool. E aconteceu que, alguns quilômetros adiante, aproveitando a diminuição da velocidade do veículo, pulou fora do carro e se internou nos matos. Um mês depois, a pobre mãe me escreveu pedindo que fosse busca-lo. Fui, e desta vez, não me criou caso. “
A prisão em leprosários dos portadores das formas contagiantes da lepra não estava restrita aos adultos, Dr. Fraga Lima em suas memórias conta-nos um caso um caso assombroso: “O Dr. Armando Pondé, por ocasião da entrada das crianças no Grupo Escolar de Itabaiana (Sergipe), surpreendeu entre eles um garoto portador da forma grave do mal. Na ocasião, todas as crianças examinadas estavam indenes, mas quem pode afirmar que entre eles não existiam casos de lepra em potencial, com a doença incubada? Como medida preliminar da profilaxia, o doentinho foi afastado do convívio dos colegas e mandado para um leprocômio, medida compulsória na época. “ Qual foi o destino desta criança num leprosário?
O isolamento forçado dos leprosos e o afastamento dos filhos menores, que viravam órfãos de pais vivos, foi determinado pela lei federal 610, de 13/01/1949, e que vigorou até 1968. A lepra no Brasil, além de estigmatizada foi criminalizada.
Os relatos dos ex-internos da Colônia Lourenço Magalhães são pungentes. Muitas vezes os pacientes chegavam para o internamento compulsório de camburão, trazidos pela polícia. Proibidos de qualquer contato social, tratados por funcionários que reproduziam todos os estigmas da sociedade. Os banhos eram com jatos de água, com uma mangueira, para evitar a aproximação; a comida colocada em vasos de barro nas proximidades do alojamento de cada um, como se bota comida para cachorro.  
(Continua quando eu tiver paciência de escrever)
A foto é de Fraga Lima.

Antonio de Samarone.

UM CONTO DE RANULPHO PRATA

A  MORTE DO COVEIRO– Ranulpho Prata

Em 1920 era dono e senhor do engenho... no norte sergipano, o cavalheiro Tibúrcio Alvares Pascoal, rebento ilustre do nobre cepo dos Alvares, limpa gente que a sacarose afidalgara, vertendo-lhe nas veias não o sangue azul das raças do além, mas as flavas torrentes do ouro líquido.
Excelente fidalguia a que dá o dinheiro! Não há nenhuma outra que a ela se avantaje ou lhe ganhe a primazia; nem a do nascimento, nem a do caráter, nem a do saber.
Justificado é, pois, e sobejamente, que se lhe anteponha ao nome o honorífico “dom”, conforme mandava o velho uso português. Servir-lhe-á até o nobre título para evitar uma provável confusão entre o seu lustroso apelido e outros Tibúrcios plebeus que, por ventura, tivesse mourejado naquelas paragens açucareiras.
Merece D. Tibúrcio uma biografia esclarecida e um tanto ou quanto minuciosa.
Vamos busca-lo nos braços da parteira, numa noite borrascosa do ano de 1880, a dar pinotes e guinchos com um vigor precoce de uma criança taluda. D. Timóteo, o seu venerabundo progenitor, alagado das mirificas venturas paternais, andava pela casa toda a dar sopros jubilosos, enviando portadores, com a feliz nova, a todos os engenhos, que ostentassem nas cancelas os brasões dos Alvares. Natural alegria era aquela: era o filho varão do casal.
O rompimento prematuro dos dentes provocou entre as pessoas da família profecias várias. Futurou-se muita coisa boa: que havia de ser um grande político; o usineiro mais rico da região; famoso homem de letras. Este último bacorejo caiu dos lábios de um tio, usineiro amante dos livros, que escrevia charadas nos jornais de Aracaju.
Infância sadia como aquela poucas se têm conhecido. Não foi atacado o repolhudo menino nem de sarampo, nem de lombrigas e quejandas coisas. Era de uma rigidez de amago de aroeira.
Aos dez anos surpreendeu o pai a dar tapas e morder uma negrinha da casa, que rejeitava as suas carícias de voluptuoso precoce. Fez que não viu e foi andando, dizendo entre si, com disfarçado sorriso:
- Filho de peixe, peixinho é...
Não havia que negar, aquele era seu filho, ali estava no sangue a prova evidente de quem descendia do cepo dos Alvares.
Vinha de longe a herança. Seu ilustre pai, avô de Tiburcinho, fora arcabuzado de tocaia, quando uma noite levava para a sua casa solarenga, na anca de árdego sendeiro, uma mulatinha púbere.... Quanto a ele, Timóteo, nem convinha falar...
Para não ficar de todo cru em matéria de letras foi D. Tibúrcio, aos dezessete anos, para um colégio em Salvador. Era nessa época um arrieiro, por dentro e por fora. Rebelou-se e escabujou contra a infâmia, do pai, em querer afastá-lo do convívio dos carreiros e dos negros cortadores de cana. Seguiu como um preso, vigiado, e com ordens de ser contido a relho.
No colégio ganhou a fama de malandrim e de esbanjador de dinheiro. Jamais dera uma lição, e, constantemente assaltado pelas saudades do engenho, arrepelava-se furiosamente, maldizendo a vida falando em fugir. Veio arrancá-lo do aflitivo viver, três anos depois, uma obstrução estercoral, que lhe matou o pai, repentinamente. D. Tibúrcio deu figas aos bancos escolares e correu pressuroso a tomar conta dos negócios do falecido, ideal que animava desde os doze anos, tempo em que vivia a se espolinhar na bagaceira, junto com os moleques do engenho.
Apossado das terras do pai, administrou-os com tão grande tino e segurança que pasmou a parentela. Achou mais facilidade em vender vantajosamente partidas de açúcar e barris de cachaça, do que reter na memória uma regra de gramática. Nada mais natural. Cada um como Deus o fez. Os parentes, desculpando-lhes a negação pelos livros, elogiaram-lhe a bolsa de usineiro. O moço prometia.
Como é de uso e praxe entre os fidalgos, aos vinte e seis anos, ofereceram-lhe como esposa a sua formosa prima. Dona Branca, menina que, sem nenhum entendimento do mundo, teve que obedecer ao pai, senhor de velho solar açucareiro. Os Alvares só casam entre si. Que nenhum plebeu se arrojasse a amar uma das fidalgas meninas, ou vice-versa. No primeiro caso o petulante pagaria com a vida o grande crime; no segundo a amorosa virgem seria coagida a entregar-se ao primeiro parente que aparecesse.
Dona Branca, mimosa flor de sentimento e candura, ao ver-se nos braços do alapuzado esposo, tremeu de horror, chorou lágrimas de sangue e enovelou-se em sua dor, odiando secretamente ao pai, que a lançou na infelicidade irremediável.
Era uma figura de romance, a dolorida menina. Fina, esguia e cor de lírio, tinha uma doce alma de criança, suavíssima e angelical.
Onze dias depois de casados tiveram este dialogo, motivado por lagrimas que vira D. Tibúrcio espalharem nas amareladas faces da esposa.
- A senhora Dona Branca não é mulher cá para mim, não pega do meu jeito. Errei na escolha. Mas só tenho a queixar-me de mim mesmo e de seu pai.
- Eu o ofendi, senhor? Perguntou a magoada criatura.
- Se me ofendeu? Ora, essa é muito boa! Mais do que isso. Repele-me, parece ter nojo de mim...
- O senhor Tibúrcio está precipitando os seus juízos e sendo injusto comigo, que desejo ser uma boa esposa.
- Qual injusto qual nada! Eu não sou cego e estou enxergando bem como é a coisa. O que a senhora queria era casar com aquele poeta malandro lá de Aracaju.
Não fale desse modo, meu primo, gemeu Dona Branca, angustiada com a lembrança do seu grande amor.
D, Tibúrcio fitou-a, arreganhou os lábios com desprezo e disse tranquilamente: - Para mim é a mesma coisa; tanto faz como tanto fez. Mulheres não me faltam...
Dona Branca caiu-lhe aos pés em postura de mártir e pediu-lhe, afogada em crebros soluços: - Mata-me, Tibúrcio, mata-me pelo amor de Deus.
O mazorral marido, ninguém acredita, riu com naturalidade e falou, virando-lhe as costas: - Deixe de asneira menina. E lançou mais adiante uma eructação, que reascendia a melado com batata doce, sobremesa predileta do fidalgo.
Desde esse dia passaram a viver separados. Cada um possuía os seus aposentos.
Decorriam semanas e semanas sem que se vissem. D. Tibúrcio fazia-lhe a grande esmola de não a procurar, tinha de sobra onde aplacar a freima cupidínea do seu sangue tumultuoso. E não precisava de mulher para mais nada.
Dobraram-se os anos.
Aos quarenta de idade D. Tibúrcio era um sujeito que fugia a toda descrição. Tentemos, porém, bosquejar-lhe a figura. Era de estatura abaixo da mediana, espáduas quadradas, atarracado, solidamente fornido de carnes, gorja de touro e cara adiposa, rechonchuda e nédia de bonzo chinês.  Repuxadas e escassas farripas de cabelos grisalhos vestiam-lhe, como um véu finíssimo, a careca luzente e cor de ferida em cicatrização.
Era bem de vê-lo passear no alpendre da casa, à espera do cavalo para ir à cidade de Maroim, calçado numas botas luzidas que lhe vinham até os joelhos, tinindo esporas de prata, rebenque do mesmo metal preso a mão direita, chapéu panamá desabado, o cadeião segurando o patacho, passado de hipocôndrio a hipocôndrio, sobre o ventre rotundo, laxo e descaído.
Má fez tinha o homem. Era um pote de perversidade e luxuria. Alapava-se naquele arcabouço atoucinhado, uma alma proterva. Contava-se dele coisas de arrepiar. Aos ladrões de cana mandava arrancar os dentes a alicate; cauterizava a língua de quem lhe subtraia uma caneca de mel imundo do tanque; aos caminhantes que descuidadamente deixavam aberta alguma cancela dos pastos, ensinava a fechá-las aplicando-lhe dúzias de bolos; por um nada fincava de roxo, a rebenque, o rosto dos empregados; e, sobretudo, sepultava na desonra quase todas as rapariguinhas que viviam em suas terras malditas. Atiradas para os alcouces das cidades vizinhas, as sacrificadas faziam a vida algum tempo mais e morriam aos vinte e poucos anos, na indigência, apodrentadas, gafadas de moléstias horríveis. E por uma destas felicidades inconcebíveis não teve o seu ilustre avô, de chorada memória, não se cansava de cavar sepulturas D. Tibúrcio. Era um monstruoso coveiro.
Corria farta a safra do ano de 1920.
O engenho... sacudia-se todo numa grande azafama. Refervia de atividades. As quatro horas da manhã as caldeiras já davam pressão, e o apito sonoro chamava braços à labuta.
E durante todo o dia o trabalho não descontinuava. Era um mourejar sem conta. Os carros cogulados de cana cruzavam-se nos caminhos dos canaviais, a cantar estridentemente. A cana alteava-se em grandes rumas no picadeiro, para minguar depois, engolida pelas moendas possantes, que giravam esfomeadas, famélicas, insaciáveis. O maquinismo trepidava, produzindo um ruído uniforme, único, monótono. Os agregados iam e vinham cada um em sua faina. O bagaço úmido e cheiroso era espalhado ao sol, numa área de muitas braças, remoído pelo gado enquanto fresco. As tachas fumegavam borbulhantes, impregnando os ares de um cheiro agradável de açúcar em preparação.
Saindo do vasto telhado surgia e se elevava a chaminé com o penacho de fumo, ondulante, a subir em espirais que se desfaziam no alto, ao sopro da ventania. No meio das pastagens, num gracioso comoro, a casa senhorial. Em torno e ao longe, ondeava o mar verde dos canaviais, que se espraiavam até muito além, a perder de vista.
As seis da tarde era que pejava, apitando de novo, dando lugar a que homens e maquinas ganhassem, com o repouso, renovado alento.
D. Tibúrcio, com espantosa energia, dirigia tudo. Não se arredava uma palha que não fosse com a sua previa ordem. Entrava aqui, espiava acolá, gritava com este, descompunha aquele.
E percorria todas as dependências do serviço, açodado, vezes colérico, vezes gracejador.
Num dos seus giros fiscalizadores viu que a porta do tanque do mel estava aberta. O mel cabaú, produto das impurezas do açúcar, é conservado em tanques de cimento, donde sai para o fabrico da cachaça e outras utilidades diminutas. Esses tanques são espaçosos quartos escurentados, cheirando a bafio e a açúcar em fermentação. Pisa-se sobre tábuas movediças e afastadas uma da outra, que deixam ver no escavado fundo a massa líquida e anegrada, coberta de um cascão que retém na superfície: ratos mortos, baratas, excremento de aves, papeis imundos e outras sujidades.
D. Tibúrcio não contente com o rendimento do seu açúcar cristal e sobretudo do mascavo, também fabricava aguardente, e em grande escala. E era da melhor, diziam a uma só voz os piteireiros que lhe deram justificada fama.
O rei da cachaça quando viu a porta aberta e o seu rico mel exposto aos larápios, franziu a testa contrariado e olhou em torno para ver se topava com quem gritar por causa do desmando. Perto dele só havia um velho boi de carro, já imprestável, a mastigar com delícia um olho de cana. D. Tibúrcio parou, deteve-se por alguns instantes, subiu os cinco degraus, empurrou a porta e entrou. Teve uma magnífica surpresa. Lá dentro estava a Rufina, a arisca Fina, cor de canela, paixão de sua vida, tormento dos seus sentidos exaltados. Havia tempo que o fidalgo andava de frente virada para a rapariga. A princípio pôs em prática o que costumava fazer com as outras: presentes, dinheiro, condescendências aos parentes, regalias.... Fina não cedeu. D. Tibúrcio duplicou os meios. Tentou. Pertentou. Nada. Não esbraveceu nem as expulsou de suas terras. Deixou que os tempos corressem. Aguardava oportunidade. Mais dias menos dias... O que não compreendia era a resistência da parte de uma menina, que não tinha pai nem mãe, e morava em companhia de um irmão borracho, que a tratava a ponta pés e a deixava sofrer de fome. Vivia a danada como um cão sem dono, em casa de um e de outro, a pedir migalhas.
Quando Rufina avistou D. Tibúrcio, tremeu dos pés à cabeça e, instintivamente, coseu-se a parede, de olhos esgazeados, opressa, como se tivesse diante das escancaradas faces de uma onça pintada.
D. Tibúrcio, passado o primeiro momento de surpresa, fechou aporta por dentro e perguntou, caminhando para ela, risonho, com a voz doce como o cabaú, que tinha estagnado aos pés:
- Que faz aqui, menina?
- Nada, não senhor...
- Ora, não minta, você veio roubar mel. Por que não me pediu?
Rufina tornou-se muito pálida e vociferou dentro dos dentes:
- Peste!
D. Tibúrcio, açulado pelo insulto, deu-lhe o primeiro bote. Fina fugiu com o corpo e o homem espapaçou o ventre pilharengo de encontro à parede. Fitou-a raivoso, a despedir pelos olhos áscuas chamejante.
Rufina, tremula e cor de cal, rosnou novamente:
- Esconjurado!
O fidalgo renovou o bote, inutilmente. E, firmando-se nas curtas e roliças pernas, saiu-lhe ao encalço fazendo prodígios de equilíbrio, pulando de uma tábua para a outra, evitando com agilidade simiesca os intervalos perigosos. Ninguém o julgaria capaz de semelhante destreza. Quanto pode o amor!
Rufina encolhia-se espavorida, recuava, dava saltos, fugia-lhe das mãos como uma enguia escorregadia.
O ânimo não fraquejava de D. Tibúrcio. Valoroso até ali! Resfolegante, congesto, com as cordoveias do pescoço intumescidas, a pulsarem como aneurisma, o suor a correr-lhes a bagadas pela cara abaixo, temulento de lascívia, não parava na corrida. E a presa sempre a lhe escapar.
Em dado momento, porém, encantou-a e prendeu-a rigidamente entre as mãos em ganchos. Fina debateu-se com furor, como uma pomba nas garras de um gavião. Mas não se extinguiu dolorosamente entre as mãos assassinas, como sucederia à infeliz pombinha. A bravia menina espalmou a mão, com a violência que lhe dera o desespero, no gorduroso semblante do fidalgo e dele se desatou para longe de si.
D. Tibúrcio vacilou, perdeu o equilíbrio e metendo os pés nos vãos das tábuas mergulhou na massa líquido do mel. Veio à tona negro de cabaú, bufante, a soprar pelas ventas, procurando agarrar-se as vigas que sustentava o tabuado. Rufina saudou a queda do seu inimigo com sonora gargalhada, que iluminou os anoitados ares.
Um santo riria em semelhante conjuntura. O cômico e o trágico andam na vida de braços dados.
D. Tibúrcio submergiu novamente. Reapareceu. Gritou. Debateu-se. O mel espesso e grosso semelhava um atascadeiro. Difíceis eram os movimentos que lhe minguavam as forças. Uma gravidade poderosa chamava-o para o fundo lodoso. Esbracejou em vão. Desapareceu por segundos. Tornou a ressurgir. Escabujou pela última vez e a caretear, arrancou da vida, de entranhas açucaradas, hidrópico de mel...
E o corpo ficou a boiar, medonhamente fúnebre, parecendo uma bola de sebo numa grande terrina de melado.

Fina, com um gozo venenoso no olhar, de feições compostas como se nada tivesse acontecido, abriu a porta, fechou-a pelo lado de fora, atirou a chave sobre o telhado e desapareceu pelo pasto, cantarolando uma cantiga chula...

terça-feira, 13 de junho de 2017

MESTRE DA MEDICINA EM SERGIPE


Fedro Portugal, nasceu na Praça Camerino, Aracaju, em primeiro de julho de 1944. Filho dos professores Francisco Portugal e Maria da Glória. Fedro se criou cercado de livros e antes da televisão, quando aprendeu a gostar da rua já tinha lido muita coisa. O seu pai era um agnóstico de profunda erudição, que lia Goethe no original. Fedro estudou com os melhores professores de Sergipe e desde cedo destacou-se intelectualmente. Junto com Luiz Daniel Baronto, fundou a Arcádia Gilberto Amado, disputando as iniciativas culturais com a Arcádia do Colégio Atheneu. Ainda no científico, Fedro já ensinava inglês no Colégio Tobias Barreto. Fedro estudo piano com a professora Maria Gesteira.

Fedro aproximou-se da medicina por influência do Tio, Dr. Geraldo Magela, e pela presença frequente em sua casa do Dr. D´Ávila Nabuco. Durante o vestibular, na hora escolher a língua para a prova de língua estrangeira, Fedro escolhe o alemão, colocando a Faculdade de Medicina em dificuldades. Só os professores Hercílio Cruz e Lourival Bomfim, estavam em condições de elaborar e corrigir uma prova em alemão. Fedro foi aluno da terceira turma de medicina, 1963, junto com Eduardo Garcia, Ildelte Caldas, Margaridinha, Agnaldo, Rollemberg, Délia, Antônio Santana, Lícia, Selma e Caetano Quaranta. A opção pela dermatologia foi influência direta do Professor Delso Calheiro. Imediatamente após a formatura (1968), Fedro ingressou na UFS como professor auxiliar.

Durante o curso de medicina, Fedro ensinou biologia no curso pré-vestibular Beta, o primeiro de Sergipe (1964). O curso era dele, Caetano Quaranta e Eduardo Garcia. O segundo pré-vestibular de Sergipe foi o do professor de Marcos Pinheiro, que originou o Colégio CCPA. O Dr. Fedro é casado com Selma (também médica) há 46 anos, e pai de três filho.


A doença fala, e o Dr. Fedro pertence a geração de médicos que sabia escutar, que tratava os exames como complementares. Também não faz a dermatologia cosmética. Humanista de elevada erudição, poliglota, amante dos clássicos, pianista. A elevada cultura geral era uma das marcas dos médicos antigos. Fedro é um remanescente desse período. Com o amadurecimento, tornou-se católico militante, fortalecendo a sua postura ética. Professor de Dermatologia, ao lado de Delso Calheiro, mantendo o elevado nível técnico da disciplina, e servindo de exemplo ético para os estudantes de medicina. Continua ensinando na pós-graduação da residência em dermatologia do Hospital da UFS. O Dr. Fedro não amealhou riqueza com o exercício da medicina. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Se non è vero, è ben trovato

Se non é vero, é ben trovato...

Ouvi dizer que, pelos idos de 1993, um fato inusitado ocorreu em Itabaiana. O maior intelectual da cidade, escritor consagrado, magistrado federal em segundo grau, preparava-se para mais uma festa de lançamento do seu último livro. Convites distribuídos, coquetel preparado, salão de festa da Atlética decorado, a solenidade estava marcada para as 19 horas em ponto. Era mais um reconhecimento da cidade a seu filho ilustre. Todos aguardavam ansiosos o grande momento.

O Prefeito da cidade, comerciante bem-sucedido, homem de muitas posses, passou no local do evento meia hora antes e perguntou a mocinha que tomava conta: - quanto custa cada livro? A menina respondeu: - trinta reais. Quanto livros ainda tem, indagou o chefe político? A menina respondeu: - cinco pacotes de cinquenta livros. O Prefeito rapidamente fez a conta, duzentos e cinquenta vezes trinta, sete mil e quinhentos reais. No afã de agradar ao magistrado escritor, retirou o maço de dinheiro, tudo nota de cem, e disse-lhe: - esses são meus. E ordenou ao ajudante, Trovoada, pegue ali os pacotes e jogue no fundo da caminhoneta.


Resultado, quando o escritor chegou para começar a noite de autógrafos, a edição do livro tinha esgotado. Os convidados voltaram para as casas de mãos abanando.

domingo, 11 de junho de 2017

MESTRES DA MEDICINA EM SERGIPE


Delso Bringel Calheiros, (91 anos), nasceu em 04 de fevereiro de 1926, na Vila de Santo Antônio do Rio Madeira/Rondônia, aos cinco anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Aos onze anos, mudou-se para Salvador, já pensando em ser médico. O pai, Guilherme Calheiro da Silva (militar), alagoano; e a mãe, Zeneide Bringel Calheiros, cearense. Durante a graduação ensinou química no Ginásio da Bahia, tendo sido professor do Dr. Nestor Piva.

Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1950. Chegou a Sergipe em 1951, contratado como dermatologista do IAPC. Montou consultório no primeiro centro médico de Aracaju, na antiga passarela, transferindo-se depois para o Edifício Cidade de Aracaju. Residindo na Av. Hermes Fontes, tinha por rotina ir e vir ao trabalho a pé. O Dr. Delso foi um médico comedido, atencioso com os pacientes, de sólida formação humanista, tinha como hábito lavar as mãos compulsivamente após o exame de cada paciente, isso num ritual demorado, com um ensaboamento generoso. Dizia-se na brincadeira, que depois da lavagem ele flambava as mãos.

Foi professor fundador da faculdade de Medicina de Sergipe, sendo a disciplina dermatologia ofertada no quarto ano. No ambulatório da faculdade foi montado um serviço auxiliar à Saúde Pública de controle da Hanseníase e doenças venéreas. Foi chefe do Departamento e Diretor da Faculdade. Como professor destacou-se pela didática apurada, os temas tornavam-se fáceis explicado pelo professor Delso Calheiro. Aulas inteligentes, recheadas de leveza e fina ironia.


Dr. Delso (91 anos) continua ativo, filosofando, com boa memória, mas acha que está pagando caro por estar vivo, uma “taxa de permanência” muito alta, e que a velhice só é suportável porque a outra opção é bem pior. Não simpatiza com a atual dermatologia cosmética e que sempre foi médico de doenças de pele. Afirma que não conhece nada da dermatologia cosmética e que tem muita satisfação com isso. “O médico deve tratar os seus pacientes com carinho e compaixão, para poder atravessar a vida com dignidade” ensina o Dr. Delso. Fechou o consultório sem nunca ter cedido a medicina comercial, ao mercado médico. Não acumulou patrimônio, nem exerceu a medicina como forma enriquecimento. Uma medicina que ficou no passado.