sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O NEGÓCIO DA SAÚDE (primeiro episódio)


O NEGÓCIO DA SAÚDE...  (Primeiro episódio)

A saúde tornou-se o bem mais desejado da humanidade (já foi a salvação da alma). Não conheço quem prefira a doença. Qualquer produto ou serviço que prometa manter ou recuperar a saúde passou a ser consumido com avidez. Medicamentos, exames, alimentos, Spa, exercícios, assistência médica, massagens, produtos naturais, autoajuda, etc. O capitalismo logo descobriu que existia muita gente disposta a comprar a saúde a qualquer preço. Isso não podia ficar em mãos de amadores. A primeira linha de produtos a virar mercadoria no setor saúde foram os remédios. Logo após a Segunda Guerra, o que antes era produzido artesanalmente por farmacêuticos, em pequenos laboratórios; prescritos levando-se em conta a individualidade de cada paciente; passou a ser produzido industrialmente, em larga escala, assumindo a condição de mercadoria. Para isso, os medicamentos foram padronizados, receberam uma marca comercial, e passaram a ser consumido por todos nas mesmas composições e dosagens. Parece que deu certo, tem idosos consumindo diariamente dezenas de medicamentos.

Essa consolidação do setor saúde como atividade econômica, criou novos mercados, novas ocupações, novos consumidores. Ninguém tem mais sossego com o bombardeio da mídia, ouvindo especialistas a ensinar o que devemos comer ou deixar de comer. As orientações, sempre em tom professoral, são acompanhadas do aval científico: esse alimento elimina o colesterol, aquele evita a queda de cabelo, esse outro retarda o envelhecimento, reativa a libido; e por aí vai. Não importa se a pesquisa existiu mesmo, se foi uma pesquisa criteriosa ou de encomenda, nada, basta citar: uma pesquisa feita na Austrália descobriu isto ou aquilo... quem vai conferir? Basta a fé. É o mesmo que um crente querer conferir se tradução da bíblia do aramaico está correta. Também não importa se o certo e o errado, o que pode e o que não pode mudem a cada 24 horas. Quem vai se preocupar com coerência. O ovo, a banha de porco, carnes vermelhas, as gorduras, passam de veneno a salvação num simples bater de olhos. O mercado tá se lixando, desde que os lucros não cessem. O meu receio é que a ciência descubra que a vida saudável só é possível comendo-se capim. Pela idade, acho que o pastar agravaria a minha dor nas costas.

A esperança de uma vida saudável tem levado muita gente ao sacrifício de certas dietas, verdadeiras penitências. O que antes servia para a absolvição dos pecados ou concessão de alguma glória, hoje serve para a eliminação de gorduras. O ritual é o mesmo. A salvação da alma ou do corpo seguem os mesmos caminhos. Até o velho sentimento de culpa é o mesmo. Muda-se a dúvida: fazer isso é pecado/comer isso pode? E quando se come o que não se pode o arrependimento bate na hora, profundo. Foi a última vez; amanhã (ou segunda) eu começo a dieta para valer. As seitas proliferam: os “vigilantes do peso” e os “seguidores do Shakes dos últimos dias” são as que mais cresceram. O mercado das dietas é absoluto. Se não der certo é porque o infeliz não obedeceu às regras, não teve força de vontade, portanto, não é merecedor da graça da saúde. A culpa é sempre do pecador.
Antônio Samarone.

(Segue...)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

MESTRES DA MEDICINA EM SERGIPE


Dr. Hélio Araújo (73 anos) – O primeiro neurocirurgião de Sergipe. Natural de Riachão do Dantas, filho de seu Adel, de família de seleiros de Simão Dias, e de dona Helena. Nasceu em 24 de maio de 1944. Fez o primário na Escola Reunida Comendador Dantas e no Grupo Escolar Lourival Fontes. O ensino em Riachão estava restrito ao primário, os meninos pobres estavam condenados a parar por aí. A família começou a procurar uma saída, um tio arrumou uma bolsa de estudos e veio morar na casa de uma prima em Aracaju, com uma condição, se não estudasse voltava. Em 1957 iniciou o Ginásio no Colégio Jackson de Figueiredo (guardou o medo da professora Judite) e concluiu no Atheneu.

Hélio Araújo chegou no Atheneu em 1959 e saiu em 1963, numa fase de ebulição política. Participou do movimento estudantil, das passeatas, agitações, do CPC da UNE, envolveu-se e acreditou que poderia mudar o Brasil, como tantos da sua geração. Ao mesmo tempo, estudava e tirava boas notas. Tomou gosto pela leitura desde jovem. Nessa entrevista fez questão de nos mostrar a sua biblioteca que, pelos livros, revela a profundidade da sua cultura. O dr. Hélio cultiva a boa música, possui uma educação musical adquirida com a professora Cândida Ribeiro no Colégio Atheneu. Isso mesmo, ensinava-se “canto orfeônico”, uma ideia de Villa Lobos que foi implantada nas escolas públicas.

A decisão de ser médico foi tomada muito cedo. Em 1952, ocorreu um surto de febre tifoide em Riachão, com quatro membros de sua família afetados, à beira da morte. A família recorreu ao dr. Bernardino Mittidiere. Mesmo com recursos escassos, o cloranfenicol ainda não tinha chegado a Sergipe, o dr. Mittidiere com a sua experiencia clínica, dedicação, postura humana, conseguiu livrar da morte quem já estava com o pé na cova. O exemplo do dr. Bernardino tocou Hélio Araújo que decidiu que seria médico, com apenas oito anos.

Hélio Araújo entrou na faculdade de medicina de Sergipe em 02 de março de 1964, no dia 31 já estava nas ruas na ilusão de que os estudantes poderiam conter o golpe. Em 1966 entrou na Ação Popular (AP), uma organização de esquerda organizada pelos militantes da Juventude Universitária Católica (JUC). Hélio foi o quarto presidente do Centro Acadêmico Augusto Leite. Durante a formação médica acompanhou inicialmente o dr. Oswaldo Leite, em seu ambulatório de oncologia. Depois seguiu os drs. Francisco Bragança e Fernando Felizola, numa formação cirúrgica de qualidade. Após um estágio realizado em Recife, decidiu que seria neurocirurgião. Como estudante assistiu e filmou a última cirurgia do dr. Augusto Leite, uma histerectomia. Contudo, esse filme que documentou a despedida do maior nome da medicina em Sergipe no século XX encontra-se desaparecido.

A formatura de Hélio Araújo estava marcada para 18/12/1969, entretanto, devido a morte do Presidente Costa e Silva, foi transferida para 28 de dezembro. Hélio ficou com medo de não se formar, pois durante o curso, a ditadura determinou a expulsão de alguns alunos considerados subversivos da Universidade, e do curso de medicina estavam na lista Ilma Fontes, Janete Figueiredo, Marinice Martins e Hélio Araújo; a expulsão não ocorreu devido à resistência decidida do Reitor João Cardoso do Nascimento Junior. A formatura foi um atropelo, pois no dia 02 de janeiro ele deveria apresentar-se no Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro para iniciar a residência médica em neurocirurgia. Retornou à Sergipe em 1972, e procurou montar um serviço no Hospital São José, não obtendo sucesso. Terminou montando o primeiro serviço de neurocirurgia de Sergipe no velho Hospital de Cirurgia.


Em 1973, foi aprovado no concurso para professor da Faculdade de Medicina mas teve a sua nomeação protelada pelas forças do SNI dentro da UFS, tomando posse somente em 1974. Teve uma participação ativa como professor, ocupando vários cargos na gestão da faculdade, sempre como posições firmes, e aberto ao diálogo com os estudantes. Hélio Araújo foi uma referência para o movimento estudantil de medicina da UFS. Em 1977, Hélio Araújo foi aprovado no concurso para médico do INAMPS.  Em 1974, casou-se com a médica e também professora de medicina dra. Izabel Maynart, tendo três filhos, Alcides, biólogo, Aída, dentista, e Arthur, neurocirurgião; e uma neta, Rafaela.

ANTONIO SAMARONE. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

MESTRES DA MEDICINA EM SERGIPE.



José Teles de Mendonça (Zeca), um doutor de verdade – nasceu no Sítio Aracati, no 18 do Forte, Aracaju, em 02/06/1950; filho do seu Tonico e dona Hermínia; e neto do lendário Major João Teles, comunista dos tempos de Luiz Carlos Prestes. O dr. Teles fez o primário com a professora dona Sinhá; e o temível exame de admissão no Colégio Atheneu, de passado glorioso. Durante o curso ginasial, puxou diariamente a pé do 18 do Forte ao Colégio sem reclamar. Menino pobre, o pai injustamente expulso do Exército acusado de comunista, sem nunca ter sido; pagando pelo Major, o sogro. O dr. Teles meteu a cara nos livros com a pretensão de ser mecânico; o que o seu pai consertava, engenheiro mecânico. A escola pública era o caminho para a cidadania. As dificuldades financeiras eram de tal ordem, que durante os sete anos que estudou no Atheneu, Teles foi duas ou três vezes na cantina. Menino do subúrbio, lateral direito de destaque nos times de peladas, Zeca incorporou uma disciplina quase militar e estudava com disposição.

Um fato expressa bem a personalidade que estava em formação: Teles gostava de frequentar o Batistão, torcer pelo Confiança; e como não tinha dinheiro para o ingresso conseguia entrar fortuitamente por um canto que tinha um manguezal. Num grande jogo a maré estava cheia, pelo manguezal não dava, resolveu pular o muro, ali do lado dos antigos prédios da UFS. Subiu primeiro num telhado de casa, alcançou o muro, e num ato de coragem, pulou incontinente para dentro do estádio. Por azar, o segurança estava escondido atrás da coluna, e não teve compaixão e ordenou, pule de volta. Como, indagou o menino assustado, o muro tinha quase quatro metros de altura. Não quero saber, pule de volta, insistia a autoridade... Não havia jeito, quatro metros. O segurança pegou o menino de treze anos pelo braço, subiu os degraus da arquibancada e desfilou com o jovem infrator para exibi-lo como um troféu aos presentes. Nesse momento o grande desespero de Teles era que o Pai estivesse no campo e assistisse aquela cena de humilhação. A vergonha foi tanta, que a partir desse dia, até hoje, aos 67 anos, Teles nunca mais pisou os pés num campo de futebol.

O menino que queria ser mecânico, foi aprovado no vestibular de medicina em 1969, sem ter passado por nenhum cursinho e antes das cotas. Foi monitor de anatomia e de cirurgia, e a partir do segundo ano de medicina passou a morar no Hospital de Cirurgia. Morar mesmo, arrumou um quarto desocupado no antigo Hospital Infantil e se mudou, de mala e cuia. Dormia e acordava dentro do hospital. Quando chegava um cadáver para a anatomia, no outro dia já amanhecia dissecado, Teles passava a noite bisbilhotando o morto. Não perdeu tempo, entrou na equipe de Cirurgia de Bragança (o velho), Djenal e Felizola; o que tinha de melhor na antiga cirurgia, onde se fazia de tudo. No quarto ano Teles já operava sozinho. Durante o curso de medicina foi professor de física no Atheneu, de onde tirava a sobrevivência. No tempo que sobrava, metia-se nos plantões do Pronto Socorro. Só fazia estudar. Ao final do curso, em 1974, resolveu que deveria sair de Sergipe para especializar-se em cirurgia torácica. Durante a residência médica de dois anos no Rio de Janeiro, as circunstâncias levaram-no para a cirurgia cardíaca. 
     
De volta a Sergipe, em 1977, foi dirigir a primeira UTI de Sergipe, criada pelo Dr. José Augusto Barreto no Hospital de Cirurgia, em 1972. Em paralelo, o Dr, Teles iniciou a organização do primeiro serviço de cirurgia cardio torácica em Sergipe. Em parceria com novos cirurgiões, Valdinaldo e Calumby, montou uma equipe de estudantes (Marcos Ramos, Marcos Lemos, Geodete Batista, Luíza Dórea, Edson Franco e Rika Kakuda), essa foi a primeira “liga” organizada em Sergipe. Dessa equipe também participou o atual Prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, que segundo o Dr. Teles, “o Prefeito era um aluno interessado, inteligente, habilidoso e possuía um talento evidente para a cirurgia”. Em julho de 1978, o Dr. Teles realizou a primeira cirurgia cardíaca em Sergipe, com circulação extracorpórea, na paciente Ermita Gonzaga. Onze anos antes tinha ocorrido uma cirurgia cardíaca no mesmo Hospital de Cirurgia, realizada por um médico visitante. Em julho de 1986, a equipe do Dr. Teles realizou o primeiro transplante cardíaco em Sergipe. O primeiro serviço de cirurgia cardíaca foi um sucesso, e funciona atualmente no Hospital do Coração e já realizam mais de dez mil cirurgias.


Em 1977, o Dr. Teles tornou-se professor de cirurgia da Faculdade de Medicina da UFS. Hoje é um profissional reconhecido mundialmente, trabalhos publicados em importantes revistas científicas, criador de técnicas cirúrgicas que levam o seu nome, pesquisador reconhecido, postura ética humanista, e muita simplicidade. Dr. Teles é casado com Lícia Resende, odontóloga, pai de dois filhos, Vivian e Victor, e avô de quatro netos. Ao final, perguntamos ao Dr. Teles o que seria um bom médico, e ele resumiu: “o bom médico é que sempre escuta o paciente, algumas vezes com os ouvidos, outras vezes com os olhos, e sempre com o coração.”
Antonio Samarone de Santana.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

ORLANDO DE CALAZANS RIBEIRO


ORLANDO DE CALASANS RIBEIRO – nasceu em 12 de novembro de 1901 em Estância/SE, filho do Coronel Leonardo Costa Ribeiro (imigrante e industrial português) e Dulce Calazans Ribeiro. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1924, defendendo a tese "Physio-Psychologia das Emoções". Fez pós-graduação na Europa na área de radiologia, diretor da Fábrica de Tecidos e articulista na imprensa em Sergipe. Tenente-oficial médico do Exército Brasileiro. Atuou ainda na política como deputado estadual constituinte em Sergipe. Faleceu em 6 de junho de 1972, em Sete Lagoas/MG, com 70 anos.
Verbete do Dicionário de Médicos de Sergipe.

terça-feira, 25 de julho de 2017

MESTRE DA MEDICINA EM SERGIPE


José Abud (80 anos), filho de pais sírios, de Aleppo. Inscrição nº 125 do CRM Sergipe. Professor de propedêutica de várias gerações de médicos, um virtuose da medicina artesanal. Um olhar clínico aguçado, remanescente de uma medicina feita com as mãos (palpação, percussão, toque), com os ouvidos, enfim, com os sentidos. Uma medicina centrada na história do paciente, em lembranças, reminiscências, recordações (anamnese). Uma medicina onde os exames eram realmente complementares, e se houvesse discordância entre o resultado dos exames e a clínica, prevalecia a última. A clínica era soberana. Como nos ensinou o professor José Abud: a medicina é uma disciplina das humanidades, não é um ramo da economia (não era).

Formado pela Escola Baiana de Medicina em 1961. Retornou a Sergipe, indo clinicar no Hospital de Cirurgia. Médico do INAMPS. Especializou-se em geriatria em 1969, sendo o primeiro geriatra de Sergipe. Depois de se tornar um médico conceituado, com clientela abundante, resolveu voltar aos bancos escolares, formando-se em educação física, aos 69 anos.

Poeta, com livros publicados. Durante vários anos comandou um suplemento literário da Gazeta de Sergipe. O Dr. José Abud é membro das Academias Sergipana de Letras e da Academia Sergipana de Medicina. No momento, aos oitenta anos, continua atendendo os seus pacientes com dedicação e competência. José Abud, é de uma geração de médicos que cumpriu um ciclo numa medicina humanizada, centrada no colóquio singular médico/paciente.

Dúvida

“Como aceitar
que essa boca
que tanto ofende
beije?

Que estes punhos cerrados
Se abram mão que
acariciem?

Que estes olhos
Injetados de ódio
Se torne serenos
e límpidos?

Que esse corpo
tenso de rancor
se abandone,
lânduido,
ao amor?”


José Abud 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

HOSPITAL SÃO MATEUS - SÃO CRISTÓVÃO, SE.


HOSPITAL SÃO MATEUS – São Cristóvão, SE.

A Santa Casa Misericórdia de Sergipe, fundada no século XVI, e dela dá notícia frei Antônio de Santa Maria Jaboatão no seu Novo Orbe Seráfico, seria de 1590 e cessou de funcionar no século XVII. Foi das mais modestas, como a de Ilhéus e outras. ” Lycurgo Santos Filho, em sua História Geral da Medicina Brasileira, PP 250, 1o Volume, relata sobre uma primeira fundação. Essa informação faz sentido, pois Cristóvão de Barros, que comandou a ocupação de Sergipe, foi por muito tempo o provedor da Santa Casa da Bahia. Posteriormente, outra Santa Casa foi fundada.
Documentos sobre o funcionamento das Santas Casas em Sergipe são raros, quase inexistentes. No momento da independência (1820), a Santa Casa de São Cristóvão encontrava-se totalmente abandonada, e, como consequência, o Hospital São Mateus, o único hospital da Província estava fechado. Para a reabertura do hospital de caridade de São Cristóvão (Hospital São Mateus) foram tomadas algumas providências, uma vez que o funcionamento da Santa Casa de Misericórdia, administrada conforme o antigo compromisso de Lisboa, andava totalmente irregular.
No momento da reabertura (1820), o funcionamento da Santa Casa de São Cristóvão era precário e irregular, as finanças dilapidadas, sendo preciso estabelecer outras formas de financiamento. A lei Provincial, de 21 de março de 1836, estabelece nos artigos 89 e 90 do seu regulamento geral que todas as embarcações que ancorem nos portos de Sergipe paguem uma taxa para as Santas Casas de Misericórdia. O decreto de 22 de março de 1838 autoriza também a Santa Casa de São Cristóvão a realizar loterias, visando à arrecadação de fundos para viabilizar o funcionamento do hospital.
“As Confrarias e Associações de Caridade da Província, existem pela maior parte em grande abandono, e de toda a que apresenta mais repreensível desleixo, é sem dúvida a da Misericórdia desta cidade. Esta instituição, única deste gênero que há na Província, não exerce ofício de caridade de qualquer natureza que seja, achando-se em completo abandono os miseráveis órfãos desta Província, e os enfermos desvalidos. ” Relatório do Presidente da Província, Dr. Manuel Joaquim Fernandes de Barros, à Assembleia Provincial, em 11 de janeiro de 1836.
No caso da Santa Casa, a dilapidação do patrimônio, o desaparecimento dos livros de contabilidade, dos registros das posses e o não funcionamento de nenhum serviço de caridade, formavam um diagnóstico perfeito. Somando-se a este quadro, existia um Aviso Imperial de 21 de novembro de 1831, que determinava aos Governos das Províncias que tomassem as contas das citadas instituições de caridade. Em 1832 é criada uma primeira comissão para cumprir tal tarefa, que, devido às enormes dificuldades, não consegue cumprir o intento. Uma portaria Imperial, de 05 de setembro de 1833, continuava insistindo para uma reavaliação de todas as Misericórdias do País.
Na Província de Sergipe, o Presidente, Doutor Manoel Ribeiro da Silva Lisboa, determinou ao Sr. Juiz de Direito da Capital, que apreendesse o “livro de provimentos” Santa Casa de Misericórdia, a fim de esclarecer a situação financeira da mesma. Em 1835, ele instituiu uma nova comissão, composta pelos senhores José Rodrigues Vieira e Almeida, Major Francisco Gonçalves Cunha, pelo padre Mestre José Fernandes de Bulhões e pelos Drs. Cypriano José Correia e José Nunes Barbosa Madureira, com o objetivo de avaliar as rendas, a administração e os desvios da Santa Casa de Misericórdia de São Cristóvão.
“Esta Comissão conquanto trabalhasse para desempenhar a honrosa missão, de que estava incumbida, não avançou muito por causa dos obstáculos que encontrou em sua marcha, por não achar escrituração alguma regular; e mesmo pelo roubo dos livros, assentamentos e até escrituras, que não foram encontradas em parte alguma .”
Na tentativa de resolver o problema, o Presidente, Bento de Mello Pereira, através de “carta de lei” de 21 de março de 1836, determinou a revisão das contas de todas as irmandades, confrarias, capelas e ordens terceiras, com exceção da Santa Casa de Misericórdia, desde o ano de 1822. No caso da Santa Casa de São Cristóvão, a providência foi mais dura: o Governo determinou uma intervenção, e, a partir daquela data, aquela instituição de caridade passou a ser administrada por uma comissão, composta de cinco membros, nomeados pelo próprio Governo da Província. E mais, determinou também uma rigorosa apuração de suas contas, uma vez que a fama que corria era da completa roubalheira por grande parte dos irmãos de caridade, que administravam aquela pia instituição.
Diante dos desmandos, o Presidente da Província operou uma certa intervenção nesta Instituição centenária, fundada pela segunda vez de acordo com os compromissos de Lisboa, ainda no século XVII, em tempo imemorial, logo após a expulsão dos holandeses. A Santa Casa passou a funcionar de acordo com estatutos aprovados por lei, em 21 de março de 1836, no Governo de Bento de Mello Pereira. A administração passou a ser exercida por uma comissão de cinco membros, nomeada pelo Presidente da Província.
A Santa Casa de São Cristóvão era uma entidade rica, o seu patrimônio estava calculado em torno de 40 contos de réis, fora os imóveis. Entretanto, quase sempre mal administrada. Estando a maior parte desse patrimônio em mãos de particulares, que não pagavam um conto de réis de juros, e que negavam terem-se apropriado de tais bens. Uma parte do patrimônio já não se tinha mais como provar que era da Santa Casa, pois os documentos foram criminosamente destruídos. Até uma doação recente, de 12 contos de réis, em moeda sonante, feita pelo Marechal de Campo José Ignácio Accioli, já estava em mãos de pessoas inescrupulosas, sendo preciso o acionamento da justiça para tentar receber a dívida. A filantropia social, nesse momento em Sergipe, estava em total decadência, necessitando, como foi o caso, da ação moralizadora do Estado. Várias Comissões foram feitas e desfeitas sem nenhum resultado.
Efetivamente, para o funcionamento da única instituição de caridade mantida pela Santa Casa, o hospital São Mateus, foi preciso que o Governo da Província passasse a efetuar doações de recursos públicos do tesouro, em forma de subvenção anual de cerca de um conto de réis; de conceder o privilégio da exploração de loterias; e, para completar o orçamento, estabelecer que todas as embarcações que deixassem os portos da Província deveriam pagar uma certa quantia à Santa Casa de Misericórdia, uma vez que os marinheiros poderiam precisar dos serviços do hospital de caridade.
O Hospital São Mateus, hospital mantido pela Misericórdia, volta a funcionar com regularidade a partir de 20 de setembro de 1840, iniciativa da comissão administrativa, presidida naquele momento pelo senhor Luiz Corrêa Caldas Lima. O hospital funcionava num sobrado com salas apertadas, ao lado da Igreja da Misericórdia. “A este estabelecimento existe anexo o de um hospital denominado de São Mateus, cuja fundação é imemorial...”. O hospital possuía uma enfermaria para os presos, outra para os indigentes, localizadas na parte térrea, pequenas e mal ventilados; e outra para os irmãos pobres, localizada na parte superior, ampla e bem arejada; possuía ainda “cubículos” especiais para os lunáticos e uma sala destinada ao depósito dos cadáveres.
“Os hospitais nesta Província, embora referidos desde o segundo quartel do século XIX, não passavam de pequenas enfermarias, ou dormitórios de doentes, pouco equipados e com escassos recursos. A Santa Casa de Misericórdia de São Cristóvão, embora setecentista, se comparada com a da Bahia ou do Rio de Janeiro, era tão pobre e pequena que causava pena...”
O funcionamento do hospital era criticado em quase todos relatórios dos Presidentes da Província. Por vários anos, funcionou sem a presença de um único médico e de nenhum boticário. Na verdade, o hospital de caridade de São Cristóvão estava muito distante de ser uma instituição de cura, a modo dos hospitais modernos. Como exemplo, entre os 78 internos que passaram por aquela casa no ano de 1854, 13 eram presos da cadeia, recolhidos ao hospital por requisição oficial do delegado da cidade.
Os desmandos administrativos obrigaram o Governo da Província a determinar uma nova intervenção na Santa Casa de Misericórdia de São Cristóvão, em 1865. No ano anterior, o Juiz de Direito da Comarca de Aracaju, já havia destituído toda a diretoria administrativa da Santa Casa, por malversação dos recursos daquela entidade.
“Dos hospitais existentes na Província o mais rico é o de São Cristóvão, cujo patrimônio orça em 40:000$000 réis. Como se verificou em 1864 na tomada de contas. Entretanto, não presta este pio estabelecimento os serviços que era de se esperar, e nem a sua receita é florescente, devido isto a má gerência dos seus fundos e inconvenientes aplicações dos seus rendimentos. ” Relatório com que o Presidente da Província, Dr. Francisco José Cardoso Júnior, abriu a 1a sessão legislativa da Assembleia Provincial, em 04 de março de 1870.

A partir de 10 de novembro 1869, o Presidente da Província, Francisco José Cardoso Júnior, alegando que a Santa Casa de Misericórdia de São Cristóvão não cumpria os fins a que se propunha, que o hospital não possuía nem médicos, nem botica, resolve suspender todo tipo de subvenção do poder público àquela casa de caridade. Com essa drástica medida, o Hospital São Mateus fecha suas portas, encerrando sua longa história.
 Foto da Associação de caridade Rosa Vieira de Melo de 1874, daí nasce a ideia do projeto maior que foi o hospital de Caridade em Rosário do Catete
Antonio Samarone. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

MESTRES DA MEDICINA EM SERGIPE



Hamilton Maciel (77 anos) – Natural de Jaciobá, a mais sergipana das cidades alagoanas. Filho de Seu Milton e Dona Albertina, nasceu em 22/10/1940. Até os 15 anos, viveu as delícias de ser um ribeirinho do São Francisco (antes das represas).  Conheceu as vadiagens, os mistérios, as assombrações do rio e espantou-se com as suas enchentes. Estudou no Grupo Escolar (escola de ricos e pobres). Foi coroinha do Padre Jasson, e ajudou missa em latim. Pensou seriamente em ser Frade, inspirado pelo Santo Frei Damião, um tridentino que pregava pelos Sertões. Na política local, sua família era udenista, ou seja, adversária do Coronel Elísio Maia, senhor de baraço e cutelo, e comandante de uma imensa jagunçada.

Na adolescência foi estudar em Maceió. Logo cedo envolveu-se com o movimento estudantil e com os revolucionários da época. Filiou-se ao Partidão, fez parte das células clandestinas, lutou pelas reformas de base, participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jaciobá. O seu envolvimento chegou a tal ponto, que quando foi casar com Glorinha, já no altar, o padre se negou a realizar a cerimonia, alegando que não casava comunista ateu. As pressas, foram na cidade vizinha buscar um padre mais moderado.

Inteligente, inquieto, o Dr. Hamilton Maciel formou-se primeiro em odontologia (1964); foi empregado dos Correios e Telégrafos; e só depois, resolveu fazer o curso de medicina, concluindo em 1971, aos 31 anos de idade. Durante o curso, houve uma identificação com a psiquiatria. Já casado e com família, em 1972, o Dr. Hamilton Maciel aceitou o convite do Secretário da Saúde de Sergipe, Dr. Jorge Vieira, e vem dirigir o hospital Adauto Botelho, na época, um dos grandes problemas da Saúde Pública no Estado. Um hospital com 120 leitos, abrigando 470 loucos ou enlouquecidos.

Com o seu jeitão amigueiro, vontade de trabalhar, decência, sede de conhecimentos, o Dr. Hamilton foi conquistando os sergipanos. Caiu nas graças do grande morubixaba da psiquiatria sergipana, o Dr. Garcia Moreno. Foi logo convidado para ser auxiliar de ensino de medicina legal e deontologia na UFS. Indicado para o Conselho Penitenciário. Fundou em Sergipe o primeiro grupo de Alcóolicos Anônimos (AA), mesmo sem ser alcoólatra, como custodiante, (hoje existe mais de cem AA em Sergipe). Seu empenho o conduziu a ser o presidente nacional dos AA. Um trabalho anônimo e eficiente de assistência e apoio aos dependentes.

A sua capacidade de liderança e a sua inquietude conduziram-no para múltiplas tarefas. Organizou grupos de estudos de psiquiatria (década de 1970), fundou a Sociedade Sergipana de Psiquiatria, foi Presidente do Conselho Regional de Medicina, Presidente da Sociedade Médica de Sergipe, participou da fundação da Academia Sergipana de Medicina; e no momento, como coroação de uma vida dedicada as lutas dos médicos, é o Presidente da Federação Nacional de Academias de Medicina. Carregou ao longo da jornada a bandeira da criação de uma Ordem Médica, a exemplo dos advogados. Em 1979 fundou a Clínica de Repouso São Marcelo, que continua prestando bons serviços à comunidade.

O Dr. Hamilton Maciel, por sua amizade com Seixas Dória, se meteu na política. Foi Presidente do PMDB, suplente de Senador e Secretário Estadual da Saúde. Entrou e saiu sem uma mancha. Para os mais jovens, o Dr. Hamilton Maciel é o pai de Helvinho, de Zaíra, Herardes e Hamilton Filho; avô de uma dezena de netos e marido da Dra. Maria Glória, também psiquiatra.


O Dr. Hamilton Maciel é sergipano por adoção. Um bom papo, culto, engajado nas boas causas, sempre cordial e ameno. Uma raridade na vida da Província: não ter inimigos nem ser motivos de fofocas e malquerenças. 
Antonio Samarone.