domingo, 10 de dezembro de 2017

ARACAJU NA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA

Aracaju na história da saúde pública.


Em 1936, O higienista Evandro Chagas, filho do famoso Carlos Chagas, deu início às pesquisas sobre a leishmaniose visceral no Brasil. Em março deste ano, ele anunciou, em uma nota prévia no periódico Brasil-Médico, o encontro do primeiro caso vivo de leishmaniose visceral no Brasil. “[...] tivemos a oportunidade de encontrar o primeiro caso clínico autóctone de kala-azar do Brasil” (CHAGAS, 1936a: 221).  Identificado como L. F., o jovem de 16 anos da cidade de Aracaju (SE) encontrava-se enfermo havia cerca de um ano e meio e já havia perdido sua mãe e irmã; supostamente os três haviam contraído a doença na mesma ocasião. Evandro Chagas declarou que os aspectos do desenvolvimento da doença ocasionada pelo parasita em questão eram “parecidos com os da Leishmania donavani” e nomeando a doença investigada pelos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz de “leishmaniose visceral do Brasil” (CHAGAS, 1936a: 221-222). Nessa primeira nota, já se referiu à doença como uma possível entidade mórbida local, diferente daquelas encontradas na África, no Mediterrâneo e na Índia. 

O TESTAMENTO DE OSWALDO CRUZ


O Testamento de Oswaldo Cruz.

Cercado pela família e por amigos, entre eles Carlos Chagas, Belisário Pena e Salles Guerra, o grande sanitarista morreu em casa, de insuficiência renal, às 21h10 do dia 11 de fevereiro de 1917, aos 44 anos de idade. Num texto escrito a lápis, pouco antes de sua morte, Oswaldo Cruz formulou as suas últimas vontades, onde se lê no documento aqui reproduzido:

“Desejo com sinceridade que não se cerque a minha morte dos atavios convencionais com que a sociedade revestiu o ato da nossa retirada do cenário da vida. Pelo respeito que voto ao pensar alheio não quero capitular de ridículo esses atos: julgo-os para mim completamente dispensáveis e espero que a família que tanto quero, se conformem com esses inofensivos desejos que nasceram da maneira pela qual encaro a morte, fenômeno naturalismo ao qual nada escapa.

Tão geral, tão normal, tão banal é que julgo absolutamente dispensável de frisá-la com cerimonias especiais. Por isso desejaria que se poupasse aos meus a cena de vestimenta do corpo que bem pode ser envolvido num simples lençol. Nada de convites ou comunicações para enterro, nem missa de sétimo dia. Nem luto tão pouco. Este traz-se no coração e não nas roupas. Peço encarecidamente aos meus que não prologuem o natural sentimento que trará a minha morte. Que se divirtam, que passeiem, que ajudem ao tempo na benfazeja obra de fazer esquecer. Não há vantagem alguma de amargurar com lagrimas prolongadas os tão curtos dias de nossa existência. Portanto, que não se usem roupas negras que além de tudo são anti-higiênicas em nosso clima; que procurem diversões, teatros, festas, viagens, afim de que desfaçam essa pequena nuvem que veio empanar a normalidade do viver de todos os dias. É preciso que nos conformemos com os ditames da natureza.

A meus filhos peço que se não afastem do caminho da honra, do trabalho e do dever, e que empunhem como fanal e o elevem bem alto o nome puro e honrado e imaculado que herdei como o melhor patrimônio da família, e que a eles lego como o maior bem que possuo.

À minha esposa querida, tão sensível, tão difícil de se conformar com as dores da nossa vida, peço que não encare a minha morte como desgraça irreparável; peço que se console com rapidez e não deixe anuviado pela dor esse espírito vivaz, inteligente, espirituoso, que constituía a alegria do nosso lar e o lenitivo pronto para os sofrimentos que por vezes deparávamos.

Aí ­ficam nossos filhos, outros tantos rebentos em que vamos reviver, garantias seguras da nossa imortalidade que se encarregarão de levar através do espaço e do tempo as porções de nosso corpo e de nosso espírito de que os ­fizemos depositário, quando ao mundo vieram.

Quanto aos bens de fortuna que deixo, espero que sejam divididos por minha esposa entre os ­filhos. Espero e rogo que nunca a questão de bens materiais venha trazer a menor discórdia entre os meus: seria para mim a mais dolorosa das contingências. Peço aos meus ­filhos que acatem sem discussão a divisão que deles ­fizer minha esposa. “
Oswaldo Cruz.

Créditos: Projeto gráfico - Mara Lemos Pinhão/SCV/Icict/Fiocruz Colaboração (pesquisa histórica) - Alexandre Medeiros/Biblioteca/ENSP/Fiocruz Fotos - Acervo da COC-Fiocruz / Fiocruz Multimagens -Vinicius Marinho / Publicação - As Grandes Figuras do Brasil em Quadrinhos, ed. Brasil-América, no 2 Cruz, Oswaldo Gonçalves. Testamento. In: Opera Omnia, Rio de Janeiro, 1972, p.740-741

A OFTALMOLOGIA EM SERGIPE

Oftalmologia em Sergipe

Até as primeiras décadas do século XIX a oftalmologia era apanágio dos cirurgiões aprovados, que realizavam operações de catarata, fístula lacrimal e enucleação do globo ocular.  Os autores antigos responsabilizavam a sífilis, as febres intermitentes e o reumatismo pelo desencadeamento de muitas lesões oculares. Algumas afecções importantes da oftalmologia: conjuntivite, terçol, sapiranga, oftalmia purulenta ou tracoma.

A cátedra de oftalmologia somente foi instalada nas faculdades brasileiras em 1873. Entretanto, muito antes, médicos conhecedores da especialidade já a praticavam na Corte. O mais afamado deles, em meados do século XIX, foi Charles Joseph Frederic Carron du Villard (1800 – 1860), italiano, natural da Savóia, e naturalizado francês. Morreu no Rio de Janeiro, para onde viera em 1857. Dirigiu o consultório de olhos da Santa Casa de Misericórdia, onde teve como assistente o médico francês Louis-François Bonjean (1808 – 1892). Foram membros da Academia Imperial de Medicina.

Carron du Villard foi um verdadeiro chefe de escola na Santa Casa. Seu discípulo mais importante foi o médico paraense Manuel da Gama Lobo. Sucedeu Carron na direção do serviço na Santa Casa. Foi o primeiro a usar o oftalmoscópio, inventado pelo alemão Helmholtz em 1851, no Brasil. Gama Lobo publicou vários trabalhos sobre a oftalmologia.

Outros oftalmologistas renomados que exerceram a profissão no Rio de Janeiro foi Hilário Soares de Gouveia, o primeiro a ocupar a cátedra de doenças dos olhos e Fernando Pires Ferreira, piauiense, formado em Paris, que vai ocupar o serviço da Santa Casa. Pires Ferreira teve como principais discípulos o oftalmologista Rego Lopes e o sergipano José Antonio Abreu Fialho. Outros importantes, o cearense José Cardoso de Moura Brasil e outro sergipano José Lourenço de Magalhães. 

A igreja católica considerou Santa Luzia a padroeira dos portadores das afecções oculares. Abusava-se de colírios e remédios caseiros: suco de cansanção (Jatropha urens). Sumo frescos de brotos de imbaúba (Crecópia). Esterco de jacaré e água boricada. Em 1854 fundou-se no Rio de Janeiro o Imperial Instituto dos Meninos Cegos.

 Na história do ensino médico no Brasil a cadeira de “oftalmologia” clínica foi uma primeira disciplina especializada a ser instalada. Na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a cadeira foi criada em 1873, e teve como seu primeiro professor o eminente cientista Hilário Soares de Gouveia. O Doutor Hilário, por divergências políticas com o recém instalado regime republicano, ensinou somente até o ano de 1895. Para ocupar essa vaga, submete-se e é aprovado em concurso público no ano de 1898, o médico sergipano José Antonio de Abreu Fialho, que se estabelece como lente catedrático de oftalmologia a partir de 1906, indo desempenhar um papel marcante na consolidação da especialidade no Brasil.

O Dr. Jose Antonio de Abreu Fialho natural de Aracaju, filho de Tito de Abreu Fialho, Delegado Fiscal da União, e D. Maria José de Abreu Fialho, nascido a 20 de janeiro de 1874. Bacharel em Ciências e Letras pelo Imperial Colégio Pedro II, matricula-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, recebendo o grau de doutor em 16 de janeiro de 1897, defendendo a tese “A oculística perante a patologia: perturbações oculares nas moléstias cerebrais”.  Fez especialização em Viena na clínica Fuchs.

O seu filho, Sílvio Abreu Fialho, escreveu uma biografia do Pai, chamada “Páginas Viradas”. Durante a sucessão de Gracco Cardoso no Governo de Sergipe, o Presidente Arthur Bernardes procura um sergipano ilustre, e não envolvido com as disputas políticas locais. A personalidade consultada foi o Dr. Fialho, que de pronto não aceitou, alegando não conhecer Sergipe, e não querer deixar as atividades clínicas. Com a rejeição de Fialho, o escolhido foi o diplomata Ciro Franklin de Azevedo. 

A SBO - SOCIEDADE BRASILEIRA DE OFTALMOLOGIA - foi fundada em 6 de setembro de l922, por JOSÉ ANTONIO ABREU FIALHO, catedrático de Oftalmologia da Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro e Diretor da Faculdade por mais de 10 anos.


A extraordinária contribuição de FIALHO, ao desenvolvimento da oftalmologia brasileira, tem seguidores desde então, na liderança da especialidade e qualquer tentativa de citar nomes, correrá o risco de ficar incompleta, gerando injustiça. O Dr. Abreu Fialho faleceu a 17 de março de 1940.
Antonio Samarone.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

SERGIPE NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA


Sergipe na contramão da história.

Não é segredo que as energias sustentáveis (eólica, solar, biomassas, etc) representam o futuro. O mundo anda nesta direção. No Brasil, o Nordeste representa o polo mais avançado da renovação de fontes energéticas. O Rio Grande do Norte, por exemplo, possui 122 Usinas Eólicas em operação e mais 25 sendo construídas. O Piauí inaugurou o maior parque de energia fotovoltaica (solar) da América Latina.

E em Sergipe, por onde caminhamos? Possuímos o acanhado Parque Eólico Barra dos Coqueiros, com a capacidade instalada de apenas 34,5 MW, e nenhuma previsão de novos. Um Parque quase simbólico. Por outro lado, estamos fazendo festa pela instalação da maior termoelétrica da América Latina, atividade entre as mais poluentes do mundo, nas proximidades de um polo turístico (os condomínios da Barra dos Coqueiros). Na realidade, as grandes empresas internacionais, produtoras de energias de fontes poluentes e não renováveis, estão procurando lugares remotos, com baixos índices de cidadania, para se instalarem. E escolheram Sergipe.

Na fase de construção gera empregos, libera recursos para recuperar alguns equipamentos culturais e cria a ilusão que Sergipe pode se recuperar economicamente. Observação: não incide tributos estaduais sobre a produção de energia; sendo mais claro, o estado não tem nada a arrecadar. Por outro lado, a médio e longo prazo uma questão se impõe: começando a funcionar a partir de 2020, quais serão as consequências para o meio-ambiente e para a saúde das populações afetadas? No futuro, a chuva ácida e gases para apressar o aquecimento global...

Antônio Samarone.  

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O DESTINO DO SUS EM SERGIPE (O acordo do Cirurgia)


O destino do SUS em Sergipe (o “acordo do Cirurgia”).

A Constituição Federal e a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8080, 19/09/1990) estabelecem que o SUS deve ser descentralizado, com direção única em cada esfera de governo. A ênfase é na descentralização dos serviços para os municípios. Não há dúvidas, a municipalização é o caminho legal do SUS. Em Sergipe andamos na contramão. Um “acordo”, transferiu a gestão do maior contrato do Sistema (hospital de Cirurgia) para o Estado, retirando de Aracaju a municipalização plena. Na prática, o hospital de Cirurgia vira um anexo do HUSE, e Aracaju fica sem referências para alta e média complexidade. A ambição política do Estado em retomar o comando, deixando ao município apenas a rede básica, vem de longe. O SAMU já foi estadualizado e a assistência ao parto está a caminho. Registre-se que o município de Aracaju desejou esse “acordo”.

Existe um consenso entre os técnicos, o caminho para recuperar o SUS passa pelo fortalecimento da rede básica, que deve regular as ações de alta e média complexidade. Por isso o comando deve ser único. Entregar o comando das ações ao estado, apenas por razões políticas, é um retrocesso. Se o município está com dificuldades momentâneas para gerir o sistema, o caminho é ajuda-lo na superação. A direção única prevista na constituição não foi um capricho do constituinte, é uma exigência da racionalidade administrativa. Essa fragmentação do SUS, agravada com o “acordo” do Cirurgia, empurra para o agravamento da crise.

A retorno da gestão político do SUS estadual é grave. Transformar o SUS num comitê eleitoral é um crime contra os mais pobres. Essa aventura é conhecida em Sergipe. Nas três vezes anteriores, o resulto foi cruel: os gestores se deram bem eleitoralmente, mas os serviços foram arruinados. Passada a tormenta, se levou muito tempo para se desfazer os maus feitos. Infelizmente, parece que em Sergipe a história se repete.

Antônio Samarone.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

QUEM PENSOU NO FUTURO?


Quem pensou no futuro?

O governo do Piauí instalou o maior empreendimento de energia fotovoltaica da América latina”, energia limpa e sustentável. Em Sergipe, o Governo autorizou a GE Power Services instalar a maior termoelétrica da América Latina, a usina vai produzir 1,5 mil megawatts e será capaz de atender a 15% da energia consumida no Nordeste. São posições opostas de gerar energia, desenvolvimento e emprego: uma sustentável, outra poluidora; uma visando o futuro, outra afundada no passado. Sergipe seguiu o caminho do passado, resolveu implantar o modelo Cubatão de desenvolvimento.

As termoelétricas a gás, o caso de Sergipe, lançam no meio ambiente o CO² (gás carbônico) – efeito estufa; SO² (dióxido de enxofre), gotículas de ácido sulfúrico (chuva ácida); o NOx (óxidos de nitrogênio), responsáveis pelo smog; encontra-se entre as atividades mais poluidoras do mundo. A termoelétrica de Sergipe, sozinha, produzirá dez vezes mais CO² que toda a frota de veículos do estado. Sabe-se que essa é apenas a primeira usina, o projeto prevê mais duas.
Além do agravamento do efeito estufa, as termoelétricas são responsáveis pelo aquecimento da água, onde o despejo for lançado, com consequências para a vida marinha; e pela temida chuva ácida, pondo em risco a agricultura e as matas restantes. A chuva ácida atinge vários km de distância das termoelétricas.

Sei que os defensores desse modelo de desenvolvimento, que ignoram os impactos ambientais, vão dizer que houve “estudos” e que os agravos serão mínimos. Não é o que apontam os estudos científicos publicados sobre as termoelétricas. No momento, a cidade de Peruíbe, interior de São Paulo, está em pé de guerra contra a implantação de uma termoelétrica. Já aprovaram uma lei municipal proibindo. A crescente resistência a instalação de atividades destruidoras do meio ambiente, tem levado as empresas procurarem regiões onde a consciência ambiental seja reduzida.
A Governo Jackson Barreto deixará essa bomba poluente como herança. Deus nos proteja.

Antônio Samarone.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

AUGUSTO LEITE


No gabinete de estudos de Augusto Leite existia um quadro, com o celebre soneto do poeta pernambucano Bastos Tigre, sobre o envelhecer, que diz muito sobre o médico sergipano.

Entra pela velhice com cuidado
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra ainda e planta o teu eirado
Que outros virão colher quando te fores

Que não seja a velhice enfermidade...
Alimenta no espirito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade!

Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude.